
A minha MARATONA DO PORTO ou
FOI BOM ENQUANTO DUROU ou
DOIS DIAS FELIZES NO PORTO
Sem treinos mais longos que metade da distância da Maratona, e com regularidade de semanal a quinzenal, chegando mesmo a atingir as três semanas sem correr, assim cheguei eu à Maratona do Porto.
E quando praticamente na véspera, em conversa com um amigo, ele me diz que temia que eu lhe dissesse que ia mesmo fazer a Maratona, eu fingi não o entender, e reforcei a ideia de que apesar de muito mal preparada ia tentar, ajustando o ritmo e traçando um novo objectivo, e acreditei que ia ser possível. Acreditei mesmo.
No sábado véspera da prova, partimos de Lisboa, divididos em dois autocarros, 66 indivíduos rumo à Maratona do Porto, dos quais, exactamente 33 iam para a Maratona.
Segui tranquila, apesar de ter passado muitas dias e muitas noites a pensar se deveria alinhar à partida, a sentir medos e pavores, confiança e desgraça oscilando num mesmo segundo.
A véspera foi passada em viagem, um almoço com os amigos mais chegados: sardinhas fritas e arroz de tomate, e a tarde foi passada na Feira da Maratona, onde se levantava os dorsais e onde era oferecida a Festa da Massa.
Muitas caras conhecidas, verdadeiros reencontros felizes de pessoas que por mais distantes que estejam e sejam, continuam a ter esta magia que as une invisivelmente e que muitas vezes se torna visível: a corrida.
Saliento outra vez, acho que não é demais, o trabalho do gabinete do Apoio Psicológico ao Corredor, a decorrer na feira, onde reencontrei a Tatiana que me atendeu há 2 anos, e a Helena que me atendeu no ano passado, e que mais uma vez estiveram cinco estrelas no brio e entrega que têm ao que fazem. Se formos capazes, com elas (ou seus colegas) nos vemos a analisamos. Factores como a motivação, a ansiedade e a expectativa, são ali analisados e saímos sempre reforçados para alinhar na partida da Maratona e para suportamos os vários estádios que atravessamos na prova. Com elas e através delas, saímos mais fortes das nossas convicções e das nossas razões de ali estarmos. Para elas (e todos os seus colegas), do lado de cá, os meus mais sentidos agradecimentos e a maior salva de palmas.
E assim me deitei tranquila. Muito bem mentalizada e motivada para correr durante umas 4 horas e muito, talvez 5 horas. Devagar, devagarinho. Acreditei partir e chegar ao fim.
A manhã chega depressa e estou já na partida. De novo os mesmos amigos e agora outros também. Verdadeiro e sentido prazer em rever. Os que vão correr e os que estão ali só para nos verem partir. Emoção, muita emoção. O dorsal da Maratona pesa-me no peito e sinto a responsabilidade. Abraços leves e outros apertados.
- Gosto muito de ti, Mamã! – o abraço não me larga a corrida toda e ela, a minha filhota vai esperar-me para cortar a meta comigo.
Encontro ao meu lado na partida, posicionado bem cá atrás, um amigo que não via há 2 ou 3 anos. Está ali para se estrear na Maratona o Luís. Diz que se lembra muito do que eu dizia sobre a Maratona, e treinou para ela. Vai estrear-se mas vai com algum receio.
Seguimos
juntos e também com o Fonseca que já tinha prometido acompanhar-me, o que eu
agradeci mas pessoalmente não gosto muito desses compromissos, mais ainda numa
prova tão longa. Apanhamos um francês e seguimos juntos. Devagar, felizes.
Ao quilometro 10, incentivo o Luís a deixar-nos e acompanhar 2 colegas que iam ligeiramente menos lentos.
- Segue Luís! Confia em ti! Tens treinos para acabar isto, e sempre é melhor ires com companhia. Por aqui as coisas não se sabe como acabam. Confia em ti! Vai!
E ele foi. E hoje é um Maratonista!
Nós seguimos bem os 3: eu, o Fonseca e o francês. Bem connosco e com o mundo.
Km 25 sensivelmente: o francês vai para a frente, o Fonseca para trás (com caimbras) e eu sigo conforme posso. Nesta altura sinto já um certo esforço em manter a passada (por mais ridículo que isto parecer a algumas pessoas).
Ao subir para a Ponte D.Luís, ainda a comer laranja do abastecimento, caminho e as pernas parecem troncos de árvore pesada que tento fazer deslocar para a frente: primeiro um pé, depois o outro, e parece que é isto andar…
Volto a tentar correr: não! Uma dor fina, aguda e bem definida está instalada no joelho direito e o tornozelo esquerdo queixa-se do mesmo, em cada vez que o pé toca o solo, alternadamente os pés, alternadamente as dores. Não! – grito mudo este. Caminho. Corro, caminho, corro, caminho, olho o cronómetro, corro, dois passos, o joelho, o pé, outro passo, caminho, impulsionar a perna para a frente é trabalho árduo e nunca pensei que caminhar pudesse ser tão difícil. Coordenar as pernas é difícil. Ouço-me. Paro, olho o rio. Mais 2 passos de corrida. Não! O joelho! O pé! Caminho.
Sou
passada por alguns atletas que iam atrás de mim.
Ouço-me. Grito por dentro. Solto lágrimas sem soltar! Ouço-me!
Quilómetro 29: o cronómetro marca 3h19m19s. Faltam 13,195 m e eu ouço-me! Paro o cronómetro (como se isso fosse importante) e encosto-me à placa aguardando.
- Estás à minha espera? - diz-me o Fonseca ao passar por mim agora parada.
- Não… estou à espera da ambulância… mas estou bem, apresso-me a dizer.
A Cruz Vermelha abre-me a porta da ambulância e pergunta-me.
- Que é que você tem?
- Tenho falta de treinos, só isso. Estou bem! – respondo subindo já para o banco, onde choro por fim.
- Mãe! Tu disseste que nunca se desistia!
- Amor! Sim, disse, mas mais importante que não desistir é sermos inteligentes para perceber quando temos de parar, e pararmos antes de cometer excessos que prejudiquem a nossa saúde e nos façam mal, percebes?
A Mãe tentou, mas ainda faltavam 13 km, estava a doer-me um pé e um joelho, estava exausta, até andar me custava, foi melhor desistir e estar agora aqui bem, do que não desistir e cair para o lado, não achas?
A explicação era para ela mas eu também precisava ouvir aquilo, por isso assim falei bem alto. E repeti vezes sem conta.
De facto, racional e inteligentemente fiz o que tinha de ser feito. Mas existe uma sombra, ai isso existe, e uma culpa, pois não respeitei a Maratona. Resta-me pensar que respeitei o meu corpo. Que acreditei, que tentei, e que foi muito bom… enquanto durou.
Antes da Maratona escrevi que participar seria um acto louco mas consciente. Hoje, resumo assim: a loucura enquanto durou foi muito bom, mas mesmo muito bom, e quando tive realmente de ser consciente e tomar uma decisão, fi-lo! Com inteligência e coragem!
Mas cá dentro o Km 29 ficará sempre na memória como um marco! Ai quando passar por ele na minha próxima Maratona… mas irei treinada, porque loucuras destas não são para se repetir muitas vezes.

Ana Pereira
Outubro 2007