Escola Secundária Júlio Dinis

BERÇO DE CAMPEÕES

Dos Jogos Olímpicos da Antiga Grécia aos tradicionais campeonatos de Remo entre duas das mais antigas e proeminentes Universidades do mundo, Oxford e Cambridge, é fácil encontrar situações onde Desporto e Educação seguem de mãos dadas. A Escola Secundária Júlio Dinis (ESJD), em Ovar, é bom exemplo disso mesmo. Ali se procura ir mais longe com o Desporto Escolar, em particular na área do Atletismo, apostando forte na vertente competitiva. Na Escola se criaram duas figuras gradas do nosso atletismo – Rafael Gonçalves, recordista nacional do Salto em Altura e Clarisse Cruz, ex-recordista nacional dos 3.000 metros obstáculos – e que ali mantêm as suas referências.

Com equipas de ambos os sexos constituídas nos vários escalões etários, a ESJD tem vindo a afirmar-se nas competições organizadas no âmbito do Desporto Escolar e procura ir mais longe, alargando a participação dos seus atletas ao Desporto Federado, por vezes com resultados surpreendentes. O Professor António Beça é o grande obreiro dum trabalho meritório, feito de sacrifício, dedicação e muito amor à modalidade. Não necessita de fazer grande apelo às suas memórias quando traça em breves palavras o historial da ESJD: “Começámos sensivelmente quando vim para esta Escola em 1986/87. Nem tínhamos local para treinar, havia apenas um campo de terra batida e um ginásio pequeno, em alcatrão e íamos treinar ao Ciclo Preparatório aos sábados de manhã. Ao longo dos anos seguintes, fomos formando mais atletas e aperfeiçoando a equipa até que, em 1995, fomos campeões nacionais de juvenis femininos, repetindo o título ao longo de quatro anos consecutivos.”
 
 

 

 

 

 

“… Tenho raiva, tenho pena…”

Discorre com o olhar, faz uma breve pausa e adivinhamos nos seus pensamentos os momentos decisivos e marcantes que fazem a história recente da equipa. “Hoje, a minha motivação já não é a mesma de há dez anos atrás. Vou tentando observar os miúdos, procuro cativar aqueles que me parece terem mais jeito… Ainda assim, somos a segunda ou terceira melhor equipa a nível nacional mas não conseguimos rivalizar com o Colégio Salesiano de Manique, a melhor equipa do Desporto Escolar sem sombra de dúvida. Têm umas condições que mais ninguém tem. Têm uma pista de tartan de 200 metros dentro do Colégio, têm horários adaptados para poderem treinar, tudo isso… tenho raiva, tenho pena de não ter essas condições.”

Procuramos ir mais longe e inquirimos se haverá alguma hipótese de poder vir a ter aquilo que outros têm. Sem ponta de desencanto, é peremptório: “Não! Tive o Joel Costa no Salto em Altura, foi o meu primeiro grande atleta. Quando fez 2,07 m e o Rafael Gonçalves 2,08 m, a Federação Portuguesa de Atletismo perguntou-me o que é que eu queria. E eu pedi dois tapetes de 40 metros. Só ao fim de 13 ou 14 anos é que consegui arranjar os dois tapetes de tartan! Até tenho mais... Consegui forrar o ginásio a tartan, porque treino o recordista nacional do Salto em Altura. O resto do material que vamos tendo, vem dos Campeonatos cuja organização nos é atribuída. Eu não peço dinheiro, exijo material.” E dá outro exemplo: “Os meus alunos vão à pista competir e cada um recebe um subsídio de dois euros para almoço. Dois euros não é nada! Eu combino com eles, cada um leva o almoço e eu pego nesses dois euros por atleta, sou capaz de meter mais algum do meu bolso e compro as camisolas para que assim eles possam competir com uma t-shirt onde esteja inscrito ‘Escola Secundária Júlio Dinis’. Espero vir a ter melhores condições materiais, mas presentemente… E agora o Desporto Escolar não dá dinheiro”.
 
A falta duma pista

Quisemos saber que tipo de apoios recebe por parte da Autarquia. Frontalmente, o Professor António Beça reconhece: “Honestamente, apesar do que se possa pensar ou dizer, não somos minimamente apoiados pela autarquia. Fomos, em anos anteriores, sim. Cediam-nos os transportes e tivemos uma grande equipa também por isso. Hoje, vamos às competições, vai o meu carro, o da minha mulher, o do professor que acompanha comigo os miúdos, vai o carro de um ou outro atleta e é assim que nós andamos, por carolice.”

“A melhor maneira de a Autarquia ajudar o atletismo em Ovar seria fazer uma pista. Porém, honestamente, não acredito! Arada tinha uma pista e ninguém se preocupou em rentabilizá-la, quando até era uma pista de cinza com relativa qualidade. Agora está a construir-se uma área comercial e desportiva no concelho, cujo projecto inicial contemplava uma pista de atletismo. Porém, no concreto, a Autarquia não teve força para levar o projecto até ao fim, perdendo-se uma grande oportunidade! Acredito que a pista vá para Estarreja, para Oliveira de Azeméis, mas não acredito que venha para Ovar.”
 

A importância de vivenciar novas situações

Com a Pista Coberta a “arrancar” já a 23 de Janeiro e os Campeonatos Distritais agendados para a Pista do Luso, no dia 1 de Março, o Professor António Beça perspectiva desta forma a época: “Esperamos participar em todos os escalões e em ambos os sexos. A responsabilidade pela organização das competições do Centro Educativo de Aveiro recairá novamente sobre a ESJD, mais concretamente sobre a turma do 11.º Ano Tecnológico de Desporto. Como habitualmente, esperamos vencer os Distritais em juvenis para podermos participar nos Regionais e nos Nacionais.” Mas deixa um lamento recorrente: “Temos quatro ou cinco alunos com enormes potencialidades, mas treinam muito pouco.”

Quanto ao recém-criado Curso Tecnológico de Desporto e à recente participação dos alunos do 12.º Ano na organização da 18.ª Meia-Maratona Cidade de Ovar e na 37.ª Caminhada AFIS, faz questão de salientar: “A organização e dinamização de eventos desportivos é um dos objectivos do Curso. Só com parcerias com clubes e/ou empresas do ramo é que nós podemos proporcionar aos nossos alunos um leque diversificado de experiências neste tipo de organizações. Penso que é extremamente importante para eles poderem vivenciar e experimentar situações novas e que saem do âmbito da organização escolar. Pena tenho que não haja mais entidades com quem nós pudéssemos criar parcerias deste género.”
 
“Voltar a criar uma grande equipa de Atletismo”

Faltava abordar a incontornável questão dos anseios e projectos para o futuro. A resposta não surpreende minimamente: “Eu estou no Atletismo mas sou profissional de Educação Física. Trabalhei no futebol profissional durante muitos anos e sempre disse que ganhava dinheiro no futebol para gastar no atletismo. O atletismo é o meu ‘hobby’, a minha paixão. Sou ainda hoje praticante de atletismo. As minhas férias destinam-se à participação nos Campeonatos da Europa ou nos Campeonatos do Mundo de Veteranos. É o meu gosto! Estou na Escola a partir das cinco horas da tarde, treino os miúdos, depois aparecem o Rafael e a Clarisse. Já tenho o Luís Assunção que dá apoio nos lançamentos. Outras vezes pego no Rafael e ele dá apoio no Salto em Altura. E isto é compensador. Criei com os meus atletas mais antigos uma relação de amizade, de carinho… E o meu anseio era voltar a criar uma grande equipa de atletismo.”

JOAQUIM MARGARIDO