O
Budismo viajou da Índia para a China durante o período do imperador Han Ming
Oriental (58-76 d.C.). Aos imperadores chineses eram dados nomes especiais
após a sua coroação e era habitual serem designados pelo nome seguido do título
de imperador. Algumas centenas de anos mais tarde, alguns imperadores começaram
a ser budistas, foi então que o Budismo começou a ser popular e respeitado em
toda a China. Estima-se, que por volta de 500 d.C., existiriam provavelmente
mais de dez mil templos budistas. Com o objectivo de absorver mais filosofia
budista durante estes quinhentos anos, alguns monges foram enviados para Índia
com o intuito de estudar e trazer clássicos do Budismo. Neste contexto, monges
indianos foram de igual forma convidados para pregarem nos templos budistas
chineses.
Segundo um dos livros mais antigos, “Registos dos Condado de Deng Feng” (Deng Feng Xian Zhi), um monge budista, com o nome de Batuo, veio até a China para pregar o Budismo em 464 d.C.. Deng Feng era o condado da província de Henan onde eventualmente o Templo de Shaolin viria a estar localizado. Trinta e um anos mais tarde, em 495 d.C., o Templo de Shaolin foi construído pela ordem do imperador Wei Xiao Wen (471-500 d.C.) para Batuo pregar. Assim, Batuo pode ser considerado como o primeiro monge chefe do Templo de Shaolin. No entanto, não há qualquer registo de como é que Batuo passou a prática do Qigong religioso, não existindo também qualquer registo de como Batuo morreu.
Porém, a pessoa mais influente nesta área foi o monge indiano Da Mo, cujo apelido era Sardili e também conhecido como Bodhidarma[1], que tinha sido príncipe de uma pequena tribo no sul da Índia. Ele pertencia à escola de Mahayana[2] de Budismo e foi considerado por muitos como sendo um Bodhisattava, um ser que renunciava o nirvana com o objectivo de ajudar os outros. Dos fragmentos históricos existentes, acredita-se que nasceu em 483 d.C.. Da Mo foi convidado pelo imperador Liang Wu (502-505 d.C.) para vir à China pregar. Chegou a Cantão, China, em 527 d.C. durante o reinado do imperador Wei Xiao Ming (516-528 d.C.). Quando o imperador decidiu que não gostava da teoria budista de Da Mo, o monge retirou-se para o Templo de Shaolin. Ao chegar ao Templo, Da Mo verificou que os monges estavam fracos e doentes, então isolou-se numa gruta para ponderar sobre o assunto. Após nove anos de meditação, Da Mo emergiu e escreveu dois tratados clássicos, Yi Jin Jing (Clássico da Mudança do Músculo/Tendão) e Xi Sui Jing (Clássico da Lavagem da Medula/Cérebro).

O Yi Jin Jing ensinava os monges como usar o Qi[3], em particular, como adquirir Qi de forma abundante, para melhorarem a saúde e modificarem os seus corpos de fracos para fortes. Depois de praticarem os exercícios do Yi Jin Jing, os monges descobriram que não só tinham melhorado a saúde, mas também aumentavam a sua força. E quando este treino era integrado no treino das formas marciais, a eficácia destas técnicas aumentava. Esta mudança marcou mais um passo na evolução das Artes Marciais Chinesas: o Qigong Marcial.
O Xi Sui Jing ensinava os monges como usar o Qi para limpar a medula e fortalecer o sistema imunitário, como nutrir e aumentar a energia no cérebro, ajudando-os a atingir o estado de Buda. Mas como o Xi Sui Jing era difícil de compreender e de praticar, os métodos de treino foram transmitidos secretamente a apenas alguns discípulos de cada geração.
Da
Mo
morreu no
Templo de Shaolin em 536 d.C. e foi sepultado na montanha Xiong Er.
No período revolucionário, entre as dinastias Sui e Tang, no
quarto ano de Tang Gao Zu Wu De (621 d.C.), o rei de Qin, Li
Shi-Ming tinha tido sérias batalhas com o rei de Zheng, Wang Shi
Chong. Quando a situação se tornou urgente para o rei de Qin, 13
monges de Shaolin apoiaram-no contra Zheng. Mais tarde, Li
Shi-Ming tornou-se o primeiro imperador da dinastia Tang (618-907
d.C.) e recompensou o Templo de Shaolin doando 40 Qing (cerca de
600 acres) de terra. Permitiu também que o Templo treinasse e possuísse os seus
próprios soldados. Nesses tempos, o treino marcial era uma necessidade para os
monges pois tinham de proteger o rico património do Templo. O monge artista
marcial era designado por “monge soldado” (Seng Bing). A sua
responsabilidade, para além de estudar o Budismo, era treinar artes marciais
para proteger o Templo. Durante quase trezentos anos, o Templo de Shaolin
possuiu legalmente a sua própria organização de treino das artes marciais e
continuou a absorver estilos marciais fora do Templo para o seu próprio sistema
de treino.
Durante a dinastia Song (960-1278 d.C.), Shaolin continuou a absorver cada vez mais estilos marciais externos ao Templo. Eles juntaram estas artes ao treino de Shaolin. Durante este período, um dos monges de Shaolin mais famoso, Jueyuan, viajou através do país para aprender e absorver estilos marciais de elevado nível para o Templo. Ele foi até Lan Zhou a fim de conhecer um artista marcial famoso, Li Sou. Através de Li Sou, conheceu um amigo de Li, Bai Yu-Feng e o seu filho. Mais tarde os quatro voltaram ao templo de Shaolin e estudaram em conjunto. Após dez anos de estudos e pesquisa mútua, Li Sou deixou o Templo, Bai Yu-Feng e o seu filho decidiram ficar e tornaram-se monges. Bai Yu-Feng tinha como nome de monge Qiu Yue Chan Shi. Qiu Yue Chan Shi era conhecido pelas suas técnicas de mãos e espada de lâmina fina. Segundo o livro “Registo do Templo de Shaolin” ele expandiu as na altura Dezoito Técnicas de Mãos de Buda para os Cento e Setenta e Três Técnicas. Compilou também as técnicas existentes em Shaolin e escreveu o livro ”A Essência dos Cinco Punhos”.
Este livro inclui e discute o método de prática e aplicações dos Cinco Padrões de Punho (Animal). Os cinco animais eram o dragão, tigre, cobra, pantera e grou. Este registo confirma que os estilos marciais dos Cinco Animais existiam no Templo de Shaolin há já algum tempo. Da mesma fonte, existe registo que na dinastia Yuan, no ano de 1312 d.C., o monge Da Zhi veio do Japão para o Templo de Shaolin. Depois de ter estudado as artes marciais de Shaolin (técnicas de mãos e de bastão) durante treze anos, voltou para Japão e disseminou as artes marciais de Shaolin pela sociedade marcial japonesa.
Mais tarde, em 1335 d.C., outro monge budista de seu nome Shao Yuan veio do Japão para Shaolin. Ele especializouse na caligrafia, pintura, teoria Chan[4] e em Gongfu de Shaolin. Ele voltou para Japão em 1347 d.C. e foi considerado e agraciado como “Guohen” (espírito do país) pelo povo japonês. Isto confirma que as técnicas marciais de Shaolin foram importadas para o Japão há mais de setecentos anos. Mais tarde, quando os Manchus tomaram conta da China e estabeleceram a dinastia Qing, proibiram o treino das artes marciais (desde 1644 a 1911 d.C.) para prevenir que os chineses da raça Han (pré-Manchus) se fossem insurgir contra o governo.
Com o objectivo de preservar as artes, as técnicas marciais de Shaolin foram difundidas à sociedade leiga chinesa. Todo o treino das artes marciais de Shaolin foi transmitido secretamente durante este período. Mas o número de soldados monges diminuiu de alguns milhares para apenas algumas centenas. De acordo com os “Registos do Templo de Shaolin”, o Templo de Shaolin ardeu três vezes desde o tempo que foi construído até a dinastia Qing (1911 d.C.). Uma vez que o templo de Shaolin tinha uma grande e fértil porção de terra e uma longa história, tornou-se um dos Templos mais ricos e cobiçados de toda a China e por isso foi muitas vezes atacado por bandidos. Na China antiga, um grupo de bandidos podia ter mais de dez mil homens.
Durante
o reinado dos Qing, o acontecimento mais influente do povo chinês ocorreu
no ano 1839-1840 (no vigésimo ano de Qing Dao Guang). Este foi o ano em
que ocorreu a Guerra do Ópio entre a China e a Grã-Bretanha. Depois de ter
perdido a Guerra, a China começou a perceber que os métodos de combate
tradicionais, com armas tradicionais e punhos, não poderiam vencer as armas de
fogo. Os valores da longa e tradicional cultura chinesa foram postos em causa. A
tradicional dignidade e orgulho do povo chinês começou a vacilar, e a dúvida de
que a China fosse o centro do mundo começou a surgir. A confiança e determinação
na auto-cultivação começaram a desfazer-se. A situação continuou a agravar-se.
Em 1900 (vigésimo ano de Qing Guangxu), quando as forças conjuntas das
oito nações poderosas (Grã-Bretanha, França, Estados Unidos, Japão, Alemanha,
Áustria, Itália e Rússia) ocuparam Beijing no despontar da Insurreição
dos Boxers, a dignidade chinesa foi levada ao seu ponto mais baixo.
Muitos chineses começaram a desprezar a sua própria cultura, que tinha sido
construída e desenvolvida sobre os princípios da cultivação espiritual e
moralidade humanística. Eles acreditavam que esses princípios culturais
tradicionais não poderiam salvar o seu país. Para salvar a nação, eles
precisariam de aprender com o Ocidente. A mente dos chineses começou a abrir-se
e as armas de fogo e canhões começaram a tornar-se populares.
Depois de 1911, a dinastia Qing caiu numa revolução liderada pelo Dr. Sun Yat-Sen. Por causa da influência da abertura das mentalidades ocorrida devido à ocupação dos estrangeiros, os valores tradicionais das Artes Marciais Chinesas foram então reavaliados e os segredos das Artes Marciais Chinesas gradualmente revelados ao público. De 1920 até 1930 muitos manuais marciais foram publicados. No entanto, este foi também o período da Guerra Civil Chinesa, durante o qual Chiang Kai-Shek tentou unificar o país. Infelizmente, em 1928, ocorreu uma batalha na zona do Templo de Shaolin. O Templo foi incendiado e destruído pela última vez pelos militares do senhor da guerra Shi You-San. O fogo durou mais de 40 dias, destruindo todos os edifícios principais. Os livros mais preciosos, assim como os registos das artes marciais perderam-se no fogo.
Foi também durante este período que, com o objectivo de preservar as Artes Marciais Chinesas, foi estabelecido o Instituto Central de Guoshu de Nanking em 1928, pelo presidente Chiang Kai-
Shek. Foram recrutados para este instituto muitos mestres e praticantes famosos. O nome tradicional “Wushu” (técnicas marciais) foi alterado para “Zhong Guo Wushu” (técnicas marciais chinesas) ou simplesmente “Guoshu” (técnica nacional). Esta foi a primeira vez na história da China que sobre o poder do governo, todos os diferentes estilos de Artes Marciais Chinesas se reuniram e partilharam os seus conhecimentos em conjunto.
Infelizmente, após três gerações, a Segunda Guerra Mundial começou em 1939 e todos os treinos tiveram de ser interrompidos. Depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a China foi tomada pelos comunistas. Sob a autoridade dos comunistas, todas as religiões foram proibidas e, naturalmente, todo o treino de Shaolin. Mais tarde, sob a direcção do partido comunista, foi estabelecido o treino de Wushu no Instituto Nacional de Atletismo. Nesta organização, grande parte do treino marcial, bem como as suas aplicações, eram propositadamente ignoradas. O partido comunista tinha como objectivo desencorajar os artistas marciais a reunificarem-se contra o governo.
A partir da história da China, pode-se verificar que todas as revoluções bem sucedidas se deveram à unificação dos artistas marciais chineses. Tristemente, apenas a parte acrobática e estética das artes foi preservada e desenvolvida. Eventualmente, tornou-se patente que os atletas treinados neste período não se sabiam defender nem combater. A representação era o objectivo desta preservação. Esta situação permaneceu inalterada até os finais da década de 1980. Depois do governo chinês ter compreendido que a essência das artes – o treino marcial e as suas aplicações – estava a desaparecer com o falecimento de muitos mestres tradicionais, foi de novo decidido o encorajamento do treino tradicional.
Contudo, muitos mestres já tinham sido mortos durante a denominada “Revolução Cultural”, e muitos outros tinham perdido a confiança no partido comunista e não estavam dispostos a partilhar os seus conhecimentos. Com o objectivo de trazer o Wushu chinês para as competições olímpicas, a China despendeu um grande esforço para promover o Wushu. Com esta motivação o Templo de Shaolin recebeu de novo a atenção do governo. Novos edifícios foram construídos, assim como um grande hotel. O Templo de Shaolin tornou-se um ponto de grandes atenções turísticas! Mais ainda, muitas actividades de treino e programas foram criadas para o interesse dos artistas marciais do mundo.
Porém, com a finalidade de preservar as definhadas Artes Marciais Chinesas, foi organizado pelo governo uma equipa denominada “Equipa de Investigação das Artes Marciais”. A missão desta equipa é encontrar velhos mestres tradicionais sobreviventes e reter os seus conhecimentos sobre a forma de livros ou cassetes de vídeo. A situação foi muito diferente na Formosa (Taiwan). Quando Chiang Kai-Shek se refugiou na Formosa, trouxe consigo muitos mestres famosos, que posteriormente ensinaram as Artes Marciais Chinesas. Os métodos de treino mantiveram-se e todas as artes foram preservadas na forma tradicional. Todavia, dado os novos estilos de vida, não há muitos jovens com vontade, paciência e tempo para se dedicarem ao treino marcial. Por isso, o nível das artes marciais atingiu o ponto mais baixo de sempre da história das Artes Marciais Chinesas. Muitos segredos das artes que levaram milhares de anos de acumulação de experiências humanas desapareceram rapidamente.
Para
preservar as artes, os segredos remanescentes começaram a ser divulgados ao
público, e até à sociedade Ocidental. Ainda bem que os livros e cassetes de
vídeo são frequentemente usados quer na China, quer na Formosa para preservar as
artes. Muito das Artes Marciais Chinesas foi preservada em Hong Kong, Indochina,
Malásia, As Filipinas, Indonésia, Japão e Coreia. Actualmente, é reconhecido
que, para se preservar as artes, todos os artistas marciais interessados pelas
Artes Marciais Chinesas se devem unir e partilhar os seus conhecimentos
abertamente. Se nós acalmarmos e olharmos para trás, para a história das Artes
Marciais Chinesas, poderemos ver que no princípio de 1900, as artes marciais
ainda mantinham o seu treino tradicional e o seu nível ainda permanecia elevado.
Desde essa altura até à Segunda Guerra Mundial, o nível das artes decaiu muito rapidamente. Da Segunda Guerra Mundial até hoje, o nível das artes não atingiu nem metade dos níveis tradicionais. Todos nós devemos compreender que o treino das artes marciais já não é útil para a guerra. As possibilidades de usar em defesa pessoal também foram reduzidas ao mínimo, comparado com os tempos antigos. São artes cujos conhecimentos requereram aos Chineses milhares de anos de acumulação. O que nos resta para aprender é o espírito das artes. Da aprendizagem destas artes, nós seremos capazes de disciplinar-nos a nós próprios e promover a nossa compreensão da vida para um nível espiritual mais elevado. Da aprendizagem destas artes, nós seremos capazes de manter uma condição física e mental mais saudável.
Vítor Casqueiro
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