História do Sabre de Taiji

Nos tempos modernos, o sabre (Dao - ) no Taijiquan adquiriu pouca importância e raramente se vê um praticante desta arte (Taijidao - 太極刀). Existe muito pouco material publicado sobre o assunto, encontrando-se o mesmo ainda no original chinês em publicações do início do século XX. No entanto, no passado as coisas poderão ter sido bem diferentes e a importância do sabre nas artes marciais e no Taijiquan em particular não deve ser ignorada.

 

 

No século XIX, século em que o estilo Yang foi desenvolvido por Yang, Lu-Chan, o sabre era indiscutivelmente a arma curta principal e mais amplamente usada na China, quer pelos militares, quer pelos civis. No Taijiquan deste tempo o mesmo seria provavelmente verdade, uma vez que os manuais de Wu, Yu-Shiang não registam nenhuma sequência de espada, apenas uma de sabre, ainda que no estilo moderno Wu (Hao) se pratique a espada1.

 

Nesta altura, existiam três tipos de sabre bastante comuns, sendo dois deles originários já da dinastia (mongol) Yuan (1261- 1368 d.c.) e outro que aparece na cronologia chinesa somente nos finais da dinastia Qing (segunda metade do século XIX). Os dois estilos principais de sabre dos Qing eram o Sabre de Folha de Salgueiro (Liu Ye Dao - 柳葉刀, Figura 1) e o Sabre de Pena de Ganso (Yan Ling Dao - 雁翎刀, Figura 2).

 

Destes dois, o Sabre de Folha de Salgueiro destaca-se claramente como a arma standard durante a dinastia Qing, sendo a arma curta instituída na tradição militar quer no soldado de linha da frente quer na patente mais elevada dos oficiais e até mesmo na Guarda Imperial (Figura 3). Por sua vez, o terceiro tipo de sabre mais comum foi o Sabre de Cauda de Boi (Niu Wei Dao - 牛尾刀, Figura 4). Este foi usado exclusivamente por civis e foi este também que sobreviveu como o mais comum nas artes marciais chinesas que se espalharam pelo ocidente nos tempos modernos.

 

 

No caso do estilo Yang de Taijiquan praticado hoje em dia, a origem do sabre utilizado permanece obscura e cercada de mistério. Trata-se de um Sabre de Folha de Salgueiro com um estilo de cabo e guarda mão pouco comuns (Figura 5), não havendo sequer registos históricos deste tipo de sabre. Muitos destes sabres têm inclusive uma inscrição na folha onde se podem ler os três caracteres Taijidao ( 太極刀 ).

 

Isto terá muito pouco a ver com o que realmente se terá passado no século XIX em que o número de praticantes desta arte não seria concerteza suficiente para que se inventasse um tipo de sabre específico para a prática do Taijidao.O que provavelmente aconteceu, foi que os mestres desse tempo usariam os sabres que tinham disponíveis e que eram comuns nessa altura em vez de tentar inventar algo novo. No caso da família Yang, a história documentada permite-nos especular um pouco e tentar compreender donde vem afinal este Taijidao e se era realmente o sabre usado por Yang, Lu-Chan e pelos seus discípulos.

 

Yang, Lu-Chan e os seus dois filhos Yang, Ban-Hou e Yang, Jian-Hou trabalharam primeiro como instrutores das milícias, ensinando as artes marciais em Guanping. Uma vez que as milícias eram tropas civis, as armas usadas seriam concerteza as armas civis da época.

 

Desta forma, o sabre utilizado seria o Sabre de Cauda de Boi.

 

No entanto, após terem ganho alguma reputação devido ao elevado nível que tinham como lutadores, os Yang tornaram-se os mestres da família imperial em Beijing, ensinando aos príncipes manchus, generais e respectivas tropas.

 

Uma vez que no exército Qing o sabre instituído era o Sabre de Folha de Salgueiro, a família Yang teria provavelmente adoptado este sabre como a sua arma.

 

Este tipo de sabre permite técnicas mais refinadas e suaves que o Sabre de Cauda de Boi e sem dúvida que encaixaria melhor nos princípios da suavidade, de aderir e colar do Taijiquan.

Desta forma é possível que tenham também havido alterações ao nível técnico na arte pedo sabre ensinada pela família Yang.

 

Portanto, durante grande parte da segunda metade do século XIX e até mesmo aos tempos de Yang, Cheng-Fu não seria estranho admitir que o sabre padrão na família Yang era o Sabre de Folha de Salgueiro tradicional das dinastias Ming e Qing (Figura 1).

 

No entanto, este sabre, apesar de ter uma lâmina semelhante ao presentemente usado no Taiji, tem um estilo de cabo e guarda mão totalmente distintos. O sabre usado nos dias de hoje no Taiji, tem um cabo bastante comprido, uma guarda mão em forma de “S” e uma argola na ponta do cabo (Figura 5).

 

Segundo alguns registos históricos, os sabres com estas características eram comuns entre os rebeldes e camponeses. Uma vez que poderiam ser usados com as duas mãos devido ao seu longo cabo, poderiam ser empregues com golpes de grande potência, o que os tornaria perfeitos para lutadores com pouco o quase nenhum treino marcial, cuja a técnica no manuseamento das armas seria de baixo nível.

 

Um exemplo típico e que se assemelha de certa forma ao Taijidao moderno é o Sabre dos Oito Triagramas da rebelião BaGua (Bagua Dao - 八卦刀, Figura 6).

 

Ainda assim, esta arma não se pode considerar como sendo o Taijidao moderno, pois as diferenças na lâmina e no próprio cabo são bastante óbvias. No entanto, segundo Scott Rodell, historiador e coleccionador de armas e antiguidades Chinesas e praticante do estilo Yang de Taijiquan, há um sabre na história chinesa do século XIX que se assemelha bastante com o moderno Taijidao. Scott chega mesmo a admitir que pode tratar-se de facto do sabre que originou o uso do Taijidao moderno no estilo Yang. Contudo, este uso dever-se-á mais a um equívoco no início do século XX, que propriamente à transmissão dos mestres.

 

 

Como foi referido em cima, Yang, Lu-Chan e Yang, Ban-Hou ensinaram as milícias durante alguns anos na cidade chinesa de Guaping.

 

Foi nesta altura que se deu a ascensão duma das maiores rebeliões (e talvez a de maior impacto sobre a dinastia “alienígena” manchu vigente) da história da China, a Rebelião Taiping (Grande Paz).

 

Ao contrário das outras rebeliões, que na sua maioria queriam a restauração da dinastia Ming e/ou dos costumes tradicionais chineses, os Taiping eram liderados por um fanático cristão, Hong Xiuquan, que sonhara ser o irmão mais novo de Jesus e que viera à Terra para libertar a China dos demónios (Manchus e Chineses de cultura daoista/confucionista/budista).

 

Chegaram mesmo a estabelecer o seu reinado com capital em Nanjing durante onze anos, e durante este tempo cercaram por várias vezes Guanping tendo sido sucessivamente derrotados pelas milícias.

 

É aqui que entra o sabre referido por Scott Rodell, uma vez que o mesmo afirma ter já inspeccionado um espécimen genuíno do período Qing, que era extremamente semelhante ao Taijidao moderno e que exibia gravações de símbolos da Rebelião Taiping na lâmina.

 

Será então o Taijidao uma modernização de um sabre antigo usado pelos rebeldes Taiping? Tendo em conta as inúmeras batalhas entre as milícias e os Taiping em Guanping onde a família Yang residiam nessa altura poderá ter acontecido que estes tivessem guardado uma arma do inimigo como troféu ou simplesmente para colecção.

 

Poderia então acontecer que no início do século XX, quando Yang, Cheng-Fu popularizou o Taijiquan, numas das várias sessões fotográficas nas quais participou ter usado essa peça de herança familiar apenas para a fotografia e então ter criado uma nova “moda” entre os praticantes do estilo Yang da altura? Estes poderiam ter acesso às fotografias e não ter o ensinamento directamente do mestre.

 

Ao verem Yang, Cheng-Fu com o dito sabre, poderiam pensar que este estava de facto a demonstrar alguma postura e então assumir que seria aquele o sabre correcto para a prática. De referir ainda, que em mais que uma referência encontrei praticantes e historiadores a afirmarem que num número antigo da revista T’ai Chi estavam publicadas fotografias de Yang, Cheng-Fu com este tipo de sabre e outros chamam-lhe inclusivamente Sabre de Yang, Cheng-Fu.

 

Todas estas afirmações contribuem para podermos assumir que de facto esta hipótese poderá ser viável, e se pensarmos que foi no início do século XX que as massas abraçaram o Taijiquan, faria todo o sentido que nessa altura se fabricassem armas em massa, já não para luta mas apenas para prática, e sendo que estaria instituído (ainda que erradamente) que este era o sabre a usar, como era um sabre pouco comum, e não havia outros estilos a usá-lo chamaram-lhe especificamente Taijidao. Esta tradição mantém-se até aos nossos dias, sem que no entanto ainda nenhum mestre ou historiador tenha comentado ou escrito sobre a verdadeira origem deste sabre.

 

 

Espero que o texto acima tenha despertado o interesse do leitor para esta questão. No entanto, tudo não passam de hipóteses, e no meu caso de especulação, pois eu próprio não tive acesso, nem a fotografias de Yang, Cheng-Fu com este sabre, nem ao suposto Sabre Taiping de Scott Rodell.

 

Caso queiramos compreender verdadeiramente donde vem o nosso Taijidao, teremos concerteza de embarcar numa viagem bem mais profunda e alargada que aquela que fiz ao explorar muito superficialmente cerca de meio século na hist ória da família Yang e do uso do sabre na China. Fica aqui o encorajamento para essa pesquisa que por certo traria muito esclarecimento sobre o folclore e fantasias supostamente históricas associadas às artes marciais e em especial ao Taijiquan.

 

1 - Referência: http://web.singnet.com.sg/~limttk/ysword.htm

 

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