Estava um dia de calor abrasador e o nível de humidade era altíssimo (Bóston, Agosto de 1994). Era a minha primeira vez nos EUA e estava a estagiar durante um mês no Headquarters da YMAA. Foi a primeira oportunidade para conhecer o Grande Mestre Li Mao Ching (李茂清): a sua personalidade forte e postura militar impôs-se de imediato em contraste com a amabilidade do Mestre Yang Jwing Ming (楊俊敏).

Mestre Li e Pedro Rodrigues,
Boston 1994
Não se importava de corrigir as técnicas com palmadas ou com um leque, de forma vigorosa, correspondendo na perfeição ao imaginàrio de todos nós, daquilo que era um mestre tradicional. O silêncio, a disciplina e a entrega na sua frente por parte dos alunos era total. Fiquei de imediato fã do seu rigor, método e eficiência, uma hora foi suficiente para se verem diferenças na clareza e coordenação de uma classe, como um exército, simplesmente lindo.
Era o seu passado militar onde as artes de guerra nasceram, tudo fazia sentido. Lembro-me de vàrios episódios, mas um dos mais caricatos foi ter dado a voz de comando “posição a cavalo” e depois de corrigir os alunos um a um, simplesmente abandonou a sala, gelàmos todos sem saber o que fazer. Passado algum tempo o Mestre Li espreitava por uma janela da escola para ver se a classe se mantinha no sítio!!!
Voltaria a encontrar-me com o Mestre Li em Portugal (1996) e ele, embora diminuído pelas cataratas, absorvia tudo o que visitava com um interesse apaixonado, tocava em tudo o que pudesse e anotava incessantemente nomes que me obrigava a soletrar vezes sem conta para poder escolher os caracteres mais adequados à tradução fonética. Esboçava um sorriso aqui e ali mas o que mais transparecia era a sua atitude firme e altiva com a qual fazia as coisas mais banais, não demonstrando qualquer sinal de fadiga apesar dos seus 70 anos. Mantinha-se implacável nas aulas e nem mesmo o meu primeiro professor escapou a uma palmada no rabo quando exibiu uma postura incorrecta, sendo o Mestre Yang a pedir desculpa pelo incidente.
Quatro anos mais tarde teria de novo a oportunidade e o prazer de treinar sob o seu comando, primeiro em Portugal, naquela que seria a sua 2ª visita. Desta vez já se encontrava recuperado da visão, após operação às cataratas. Mantinha-se ávido de conhecimento, com uma curiosidade pela história e pelo passado português de tudo quanto visitava. Um destaque muito especial à sua palestra em Almada sobre a prática das artes marciais ao longo da sua vida e da história do estilo punho longo.

Mestre Li, Mestre Yang e Pedro Rodrigues,
Budapeste 2000
Voltaria nesse ano a encontrar o Mestre Li em Budapeste no 1º YMAA International Summercamp – Hungria, e se o evento já era especial pela reunião de todos os países membros da YMAA com mais de 200 participantes, a sua presença tornava tudo ainda mais especial. Desde as mais inesperadas aplicações técnicas até ao manuseamento rigoroso das armas, fossem elas de metal ou não, sentia-se a diferença. Este senhor transpirava rigor em tudo o que tocava. Viria a discursar para todos e, enquanto o fazia escrevia simultaneamente, aproveitando para praticar a escrita chinesa e manter a lucidez. Demonstrava sabedoria nas respostas, lucidez e até humor. Lembro-me de lhe terem perguntado acerca do treino da “Camisola de Ferro” e da sua resposta ter sido: ”porque querem transformar o vosso corpo em ferro em vez de o usarem para fazer as coisas bem feitas?”. Ou então a maneira caricata como descreveu o estilo Grou Branco imitando um grou a bater as asas!!! Ainda hoje me divirto com estes momentos.

Mestre Li, James Yang e Pedro Rodrigues,
Brenna 2006
Agosto de 2006 – Polónia, 7º YMAA Intrernational Summer Camp, Aniversário do Mestre Li (80 anos), Aniversário do Mestre Yang (60 anos) e Aniversário da YMAA Polónia (20 anos). Estive presente como Instrutor Principal de Campo – Shaolin. Bom, isto significa que estou sob a orientação directa do Mestre Li, no mínimo excitante. No entanto tinha as minhas inquietações, como estaria a sua saúde, afinal era um homem de 80 anos. Contei com a ajuda de James Yang (filho mais velho do Mestre Yang) que apesar de ter dificuldades em compreender o seu mandarim, fazia o que podia para nos manter em sintonia. Nem sempre correu bem, chegando mesmo a pedir que executasse um pontapé contra o Mestre Li por engano, o que me valeu um daqueles palmadões clássicos!!!
Bom, tudo começaria com uma chegada ao aeroporto de Cracóvia acompanhado de sua esposa, num voo com origem no Taiwan e com escalas em Hong Kong e Paris. Se tudo tinha corrido bem até Hong Kong, a escala em Paris complicou-se por não dominar a língua e pela necessidade de fazer a ligação ao voo seguinte. Tendo de seguir um conjunto de indicações, imediatamente terá simulado a incapacidade de andar, o que lhe valeu uma cadeira de rodas e um guia até à porta de embarque. Genial! Só que ao aparecer nas chegadas do aeroporto da Cracóvia de cadeira de rodas, quase matou de susto o organizador do acampamento Robert Was, que pensou o pior até a situação estar esclarecida.

Correcções de Espada, Mestre Li e Pedro
Rodrigues,
Brenna 2006
Mas o Mestre Li estava de facto um homem diferente. Ao contrário do que eu esperava, não eram as limitações físicas a imporem essa diferença, bem pelo contrário, impressionaram tudo e todos, não estou a exagerar em nada, senão vejam: Corrigiu à minha frente durante mais de 90 minutos, sequências de um leque de vinte do programa de treino da YMAA (onze de Punho, uma de Bastão, duas de Sabre, três de Espada, uma de Lança, uma dois homens Espada e uma dois homens Sabre vs Lança), demonstrando uma lucidez e destreza física impressionantes (destaque para o Bastão Longo). Foi retirado de lá à força, porque pela sua vontade ainda lá estava.
Mestre Li demonstra Bastão de Kunwu,
Brenna 2006
Voltou a surpreender pelo entusiasmo com que ensina e deu uma lição de unidade entre os vários países ao nível da uniformidade das escolas. Pensava ter visto tudo, enganei-me. Voltou a surpreender na demonstração do Acampamento, quando saiu da sua cadeira para executar quatro sequências (Tan Tui, 彈腿) de Punho Longo seguidas da forma de Yang Cheng Fu Taijiquan (楊澄甫太極拳), mantendo em segredo o que iria apresentar até ao último momento. Tive de imediato um deja vu e quem viu o vídeo do Mestre Han Qing Tang (韓慶堂) a fazer Tan Tui sabe do que falo, foi único.
Mas havia diferenças neste homem inspirador, na maneira como se relacionava com todos nós fora das aulas. Não havia gelo, o seu sorriso era uma constante e para surpresa do próprio Mestre Yang tocava-nos nos ombros com amizade. Disparava conselhos desde os hábitos alimentares, da postura à mesa, até aos conjugais. Havia de tudo, e os mais importantes escrevia para que não se esquecessem do que tinha dito, ora num bloco de notas ou mesmo num guardanapo de papel durante a refeição. Respondia a todas as perguntas com uma clareza e memória implacáveis.
Durante as aulas assim como exigia rigor e destreza, também chamava a atenção para a dureza do terreno no qual treinávamos, e da necessidade de nos ajustarmos a essa realidade. Assim como mostrava a violência de uma técnica, lembrava-nos dos princípios éticos e morais das artes marciais chinesas (Wude, 武德), relativo ao uso abusivo da arte. Um equilíbrio constante e sensato pontuava as suas intervenções.
Foi surpreendido no dia da comemoração dos aniversários por um vídeo com imagens de há vinte anos atrás sobre os primeiros seminários do Mestre Yang na Polónia e das suas próprias visitas a este pais, e ficou em choque quando um aluno trouxe um vídeo sobre os antigos mestres no Taiwan onde viria a ver a filha do Mestre Han Qing Tang e seu marido a executarem San Cai Jian (三才劍) e Si Lu Ban Zha (四路奔砸). O Mestre Yang disse que parecia um miúdo de olhos e boca abertos.

Mestre Li canta um poema de sua autoria,
Brenna 2006
O Mestre Li voltaria a atacar, compôs um poema para apresentar na cerimónia de encerramento do campo, para o qual terá treinado o dia inteiro no seu quarto, segundo a sua esposa, e como a poesia chinesa não se recita mas canta-se, assim o fez para espanto de todos, algo que o Mestre Yang jamais tinha visto.
É verdade, capaz das reacções mais únicas e inesperadas sempre pronto a surpreender, lembro-me durante a sessão de perguntas e respostas. Um aluno pediu que o Mestre Li demonstrasse aplicações de uma sequência, atendendo ao local e ao momento foi entendido pelo Mestre Li como um desafio, embora o Mestre Yang tivesse tentado travar a situação já era tarde demais, desembaraçou-se do Mestre Yang e rapidamente pediu ao aluno que o atacasse, e com vigor demonstrou o que lhe tinha sido exigido.

Mestre Li no comando da classe de Shaolin, Brenna 2006
São tantos os momentos que atingem a minha memória que tenho dificuldade em organizar-me, no entanto ficam no meu coração duas expressões: Quando recebeu de presente um chapéu de características militares, que de imediato passou a usar no acampamento, colocou-o na cabeça e com uma expressão fria saudou-nos a todos com uma continência; O outro quando comentávamos a demonstração, com um grande sorriso disse: ”Nada mal para um homem de oitenta anos”.
Não foi nada mal, foi maravilhoso estar estes dias ao pé de si, não me vou esquecer de nada, prometo, guardo os seus conselhos quanto ao uniforme de treino “nada de calças a roçar pelo chão, podem ser pisadas e causar a queda do aluno, usar sempre o cinto firme, bolsos nas calças pedem as mãos nos bolsos, lembrem-se de não colocar ambas as mãos nas bolsos, deixem sempre uma de fora para poderem reagir a um ataque surpresa”, guardo as suas correcções algumas feitas no corredor do hotel, e até na hora da despedida quando chamou a Kathy Yang (filha do Mestre Yang) para lhe dizer que não usasse aquelas sandálias, pois se tivesse de lutar seriam um impedimento para uma boa resposta. Para mim tudo isto é surreal.
Espero sinceramente poder vê-lo outra vez, nem que seja só para o poder abraçar.
Muito obrigado Mestre Li Mao Ching.
Pedro Rodrigues