Nota Introdutória: O nosso grande Amigo Joaquim Margarido no ano de 2006, escreveu o texto abaixo publicado, protagonizado por duas vacas (literalmente), onde era dada outra visão do Ultra Trail da Serra da Freita (Memorial Sálvio Nora)

Todos os personagens referidos são atletas muito conhecidos no meio, nomeadamente nos foruns existentes sobre atletismo.

Pela boa disposição transmitida, e pela qualidade dos mesmos, recuperamos aqui o texto de 2006, publicando também o que a sua pena escreveu no corrente ano.

Certamente em 2008 teremos a continuação

Carlos Viana Rodrigues

 

2006

"A Revoada"

 

Quando os avistou lá em baixo, Benigna pensou com os seus botões: “Outra vez, não!”. A pacatez do planalto já tinha sido abalada manhã cedo e agora, com o Sol já alto e o calor a apertar, lá vinha mais uma revoada deles. Adoptou uma pose aristocrática – não fosse ela uma arouquesa com “pedigree” – e ali ficou a vê-los aproximar-se, alegres e coloridos, a correr ou a passo, “até parece que nunca viram uma Serra!”.
Um surdo restolhar atrás de si fê-la voltar-se num estremeção: era Cremilde, uma holandesa muito mais nova que ela, aproximando-se numa excitação louca (embora “louca” seja um termo mal-amado por qualquer vaca que se preze). Estacou e ali ficaram as duas que nem os maridos a olhar para um palácio.
- Estás mal disposta? – perguntou Benigna, incomodada com os ruídos que o complexo estômago de Cremilde emitia.
- Se estou – respondeu-lhe a outra. Acho que se me parou a digestão. Ainda tenho a pança atulhada de plástico.
- Eu bem te disse para não comeres as fitas ao Moutinho! Por tua causa, o do bigodinho já se enganou três vezes e já fez para aí mais oito quilómetros.
- Mas pareciam tão saborosas…
- Que te sirva de emenda, e…
Cremilde não a deixou acabar. Esquecendo o mal-estar que se espalhava já pelo barrete e lhe começava a arrepanhar o folhoso e a coelheira, a simpática vaca pôs-se aos pulinhos.
- É o Teixeira! É o Teixeira! Olha, olha, é ele, não vês?
- Quem Cremilde? Que Teixeira?
- O Jorge, mulher, ali com o numero 1. – esclareceu Cremilde. Vê lá tu que passada, que estilo… Também não é para admirar. Quem treina com o Boi Mãe!...
- Com o Moiben, vaca, com o Moiben! – esclareceu Cremilde. E sem se deter: O outro que vem com ele será o Moía?
- Credo, cruzes, tu sabes o que dizes? Este é o Jorge, um homem do Norte, um Andrade de gema!
- Não me fales em Andrade, que para mim, bem sabes, Andrade há só um: O Fernando e mais nenhum! Podes escrever o que te digo, Cremilde: ainda vamos ter as Melíades a subir à Freita!
Entretanto, continuava a não se ver fim ao desfile e Cremilde, entusiasmada, não parava de os enumerar a todos, numa lengalenga monocórdica a fazer lembrar o Gabriel Alves nos seus melhores dias: Fernando Costa, dois caminheiros AFIS, a Maria João Sá e a Ana Gomes, mais um caminheiro AFIS, o Bruno Reis, outro caminheiro AFIS, um atleta AFIS – o do pão-de-ló para o Victor Carvalho -, o Vítor Carvalho – o do Monte Velho para trocar com o do pão-de-ló -, e mais dois caminheiros AFIS, e...
De repente muda o tom de voz e Cremilde empertiga-se.
- O Álvaro! É ele, o Álvaro Costa! O camarada Álvaro!
Mal refeita do susto, Benigna pensava que só lhe faltava agora uma vaca intelectual de esquerda. Deu consigo, porém, a admirar o Orlando Duarte, com quem se identificava, também ela carregadinha de artroses.
Subitamente, a euforia de Cremilde deu lugar à estupefacção: “Uma ovelha, vejam só, vai ali uma ovelha!”. “E negra”, acrescentou Benigna. “Por este andar ainda nos passa aqui também algum bode expiatório.”
- Deixa o Running em paz! – atirou Cremilde.
Um silêncio incómodo caiu sobre ambas. Mais um ou dois atletas passaram, quatro ou cinco caminheiros AFIS e finalmente a calma voltou a instalar-se no planalto. Cremilde respirou fundo. Afinal, tinha valido bem a pena ter vindo apreciar o Trail.
Mas Benigna é que não se conformava. Até ao final esperou que ele passasse e… nada!
- Mas quem, mulher? Vamos! Desembucha!
Benigna olhou para o Céu, como se dali viesse a resposta. Abanou a cauda pachorrentamente fazendo levantar um cacho de moscas e lá foi acrescentando: "O Paulo Silva, Cremilde! O Paulinho das palmilhas! O santo milagreiro do Zen! E eu que tanto andava a precisar dumas ortóteses novas para os meus cascos!"

2007 

O Dean, o Quim, a Sua Mulher e a Amiga Desta

 

Levantou a cabeça e espetou as orelhas. Aquela estampido surdo parecia um tiro de partida e, mais coisa menos coisa, teríamos aí nova revoada deles. Afinal, era apenas Benigna, fazendo-se anunciar com um sonoro traque. E vinha com má cara, a pobre da Benigna.

“- Ai, querida. Estou tão enjoada…” Mas antes de Cremilde poder pensar fosse o que fosse, já Benigna se aprestava a acrescentar, cenho franzido, que, para além de “enjoada”, estava mesmo era “danada”. Então não é que o Moutinho proibira o “seu” Quim de participar na “pasta-party”. Esse tal Bastos é que tinha razão. “Frade badalhoco” era o que ele era… Cremilde encolheu os ombros. Nada que já não previra. Tinha consciência que a pretensão do Quim Bolas era tudo, menos realista. Mas quando se lhe metia uma coisa em cabeça, encornava para ali e não havia nada a fazer. Tinha de ser à maneira dele.

A coisa explicava-se assim: Há dias que o Quim Bolas andava excitadíssimo. O livro do Dean Karnazes, “O Homem da Ultra Maratona”, dera-lhe a volta ao miolo e pusera-o a matutar. Aquelas “Confissões de um Corredor Nocturno” tinham tudo a ver com ele, caminhante solitário do planalto da Freita, sob deslumbrantes abóbadas estreladas ou debaixo de temporais medonhos. Sem as “bolas”, identificava-se até pelo próprio nome, cuja ressonância era parecida. E, tal como o Dean, também ele adormecera uma noite a pastar e só acordara com a luz ofuscante dos faróis de um jipe, um casal de namorados americanos a incomodar-lhe sono e ruminância. Fez cara feia e pôs os dois a fugir a sete pés, com o “camone” a deixar para trás uns calções com as cores do tio Sam. Que o Quim Bolas, em boa hora, guardou.

Agora que o Dean Karnazes vinha à Freita, tinha de o conhecer. Mais a mais, se todos diziam que o Dean era “um autêntico boi”, ele gostava de estar lá para o comprovar. Já bem bastava não ter ido a Alvalade, na sua adolescência, ouvir a Kim Carnes cantar “Bette Davis Eyes”! Enfiaria os calções e, disfarçado de “ultra-maratonista americano”, entraria despercebido na “pasta-party”. Chegar-se-ía à beira do Dean e mirá-lo-ía de alto a baixo. Não era por nada, mas sempre queria ver quem era mais boi, nem que para isso fosse necessário baixar os calções. Fariam amizade, talvez o Dean se tentasse a acompanhá-lo às altas pastagens e, tranquilamente, degustariam uma fresca, bem abonada e deliciosa dose de pasto… Só que o Moutinho não foi em cantigas. Assim que o vira por ali a meio da tarde, rondando a cantina, vá de enxotar o pobre do boi que nem mosca da sopa.

Expectativas goradas, foi um Quim Bolas cabisbaixo que regressou ao prado, o coração destroçado por não ter sequer avistado o seu herói. Nessa noite nem pastou. Mas Benigna é que não se conformou com o enxovalho. As coisas não podiam ficar assim e, de malhado incandescente e tetas empinadas, invadiu o acampamento, foi-se ao panelão onde se encontravam as sobras do repasto e, duma assentada, lambeu quase doze quilos de esparguete.

“- Esparguete, Benigna? Como é que foste comer esse esparguete todo, vaca?”

“- Ora… estava escuro e… na verdade… olha, foi à ganância! Agora que penso nisso, até que estranhava o meu Quim Bolas falar em ‘pasta-party’ e não em ‘pasto-party’. Nunca me passou pela cabeça que o maluco do Moutinho ía dar àquela gente toda umas malgadas de massa. Foi do pior, Cremilde. Desde as duas da manhã que não paro de arrotar. Mas eu vingo-me! Ai não, que não vingo! Trago aqui duas sacadas de pedras parideiras e vais ver… o primeiro a apanhar é mesmo esse tal Dean.”

“- Não te metas nisso, Benigna. O Dean não tem culpa nenhuma. Eu, é que me precipitei. E para mais o Dean já passou quase há uma hora. Ele e os outros.” Era o Quim Bolas que se abeirava das duas vacas, imponente como sempre, provocando a habitual emoção que lhes arrepiava a coluna, dos pêlos do rabo até à ponta dos cornos. E aqueles calções… Ai, ai!

“- Já passaram? Como é que já passaram?”, inquiriu Cremilde com a voz trémula. A pobre madrugara para poder estar ali a tempo e horas e, finalmente, conhecer em figura de gente alguns dos seus heróis. Dispensava “essa franganita” da Célia Azenha. Afinal, já a tinha visto no ano passado. Quanto ao Vítor Mota, também passaria bem sem o ver. A foto dele bastava para a deixar transida de medo. Mas o Hélder Jorge, aquilo era só “rapidinhas”, bem ao seu gosto, que isto de estar uma noite inteira a ler “relambórios”, a aturar aqueles que só pensam em gastar tinta, não é para vacas da sua raça. E o Zen, com quem tanto se identificava, também ela com as “rótulas presas por arames”. Será que ainda não era desta que o via? E aqueles rapazes do Ginásio Gimnoforma, todos eles “bife” do melhor? E o Mayer Raposo? Sobretudo o Mayer Raposo, a mais a sua “bigodaça”… E agora o Quim Bolas a dizer-lhe que “já passaram”. Não. Não era possível!

Levantou a cabeça e viu no olhar de Benigna a mesma tristeza. Também ela só falara, nestes últimos dias no Calvin, vaca louca que era por Banda Desenhada (apesar de “vaca louca”, como é bem sabido, ser um termo mal-amado por bovídeo que se preze). E, já que não iria ter o seu Cláudio para desabafar, talvez pudesse conseguir chegar à fala com o Pedro Amorim e meter-lhe uma “cunha”, ela que precisava de tirar uns quistos nos ovários e queria fazê-lo com epidural…

Contristados, ali permaneceram os três por um bom bocado, o silêncio apenas entrecortado pelos sons que o aparelho digestivo da pobre da Benigna ía debitando com uma frequência preocupante. De repente, puseram-se em marcha, não sem antes Benigna ter deixado o local assinalado com uma enorme “bosteirada” de quase metro e meio de diâmetro e seis quilos de esparguete “recilado”, bem no meio do monte de pedras parideiras. Visto de longe, até parecia um “sombrero”... À medida que progrediam, perceberam que um "sururu" se aproximava e os melhores pensamentos foram-lhes acorrendo à mioleira, animando-lhes a alma e pondo-lhes, inconscientemente, o rabo a abanar. Afinal, os “outros” ainda não tinham passado e estavam mesmo a chegar. “Lá vem o ‘maluquinho’ da Orientação... e a Albertina Dias...”, avançava Cremilde com entusiasmo. “Olha, olha, aquela espécie de japonês a fotografar tudo e todos com mais de cinquenta caminheiros atrás...”, alvitrava Benigna com emoção. “Deixem passar o ‘Chico e a ambulância’... e os dos Quatro Caminhos...”, adiantava o Quim Bolas, sobrepondo a sua voz às das companheiras. E, de súbito, avistaram-na. Como uma mola, da boca de todos irrompeu, numa só palavra, o nome daquela que todos mais amavam, desejavam e ansiavam. A verdadeira, a inconfundível, a única, a regressada: a “Mãe”.

JOAQUIM MARGARIDO