A tinta
Pedi-lhe que se sentasse. Esperei uns segundos que a irrequietude própria dos seus sete anitos desse lugar à atenção. Quando, finalmente, se pôs direito e levantou os olhos, revi-me na sua figura de menino. E foi como se o tempo de toda uma vida se aglutinasse num único e preciso momento. Esqueci a reprimenda que lhe tinha preparado e, como que suspenso, fiquei preso a uma imagem em tudo semelhante àquela, talvez a primeira imagem nítida que tenho de meu pai. Há muitos, muitos anos atrás…
“Senta-te, Quinzito”, ordenou. A sala parecia agora maior ainda, a modesta mobília em tons amarelo-palha a dominar o espaço, a mesa quadrada ao centro, o aparador, a cristaleira, um quadro de pescador, em tons de azul, numa das paredes. E falou. Não sei de que falou, mas a coisa era séria. Séria e, a meu ver, eivada de injustiças. Lembro-me que protestei, argumentei, chorei. Talvez o pai tenha reflectido na dureza das suas palavras, me desse o benefício da dúvida. Talvez! O que eu sei, isso sim, é que se virou para mim e, após uma pausa que me terá parecido uma eternidade, disse simplesmente: “Olha, camarada, tu escreves bem, mas gastas muita tinta!” E, embaraçado, levantou-se, passando-me nervosamente a mão pela cabeça e pondo-me o cabelo todo em desalinho.
A partir desse dia tudo passou a ser diferente. O trato por “camarada” ficou. As nossas conversas tornaram-se adultas, no pressuposto do “camarada”. Eram elevadas, “de homem para homem”. Mas se isso nos acompanhou ao longo do tempo – e acompanha, ainda! -, aquele “escreves bem, mas gastas muita tinta” agarrou-se-me de tal forma que, recorrentemente, me acode ao pensamento e me fala à alma.
Lembras-te, pai, das horas e horas a brincar às caricas no pátio? Compravas-me uma caixa de paus de giz e eu desenhava no cimento as estradas da Volta a Portugal, as pistas de atletismo dos Jogos Olímpicos, os campos de futebol de todos os campeonatos. Assomavas à janela para me chamar, ao fim duma tarde de “pontapés”, “braçadas”, “corridas”, “pedaladas” e sei lá mais o quê, e vias o pátio multicolorido, repleto de riscos e de formas geométricas. Lembras-te, pai? Escrevia bem mas gastava muita tinta, devias pensar.
E lembras-te de quando me ensinaste a pescar, pai? Ía sozinho naquela bicicleta minúscula até ao Furadouro, canas presas ao correr do quadro, saco de vime às costas. Meia hora a pé para Norte, até ao pesqueiro. E lembras-te daquele dia em que cheguei a casa já noite escura, tu e a mãe aflitos, a pensar já em ligar para os Bombeiros e tudo? Como ficaste contente ao ver-me chegar. No bornal, cinco linguados, cinco “patelas” como nós lhes chamávamos. Eu tive alguma culpa de só ter começado a dar peixe ao cair da tarde, pai? Escrevia bem, mas gastava muita tinta…
Depois veio o primeiro emprego, os tempos da tropa, o namoro “a sério”. Sete anos e sete meses para te dar uma nora, mais sete anos e sete meses para veres nascer o primeiro neto. Vê lá tu, pai, a tinta que gastei. Mas, diz lá pai: escrevi ou não escrevi bem?
Hoje falo-te do Hospital, do carinho que tenho pelos doentes, das pequenas-grandes vitórias a cada dia que passa. Mas nem fazes ideia a tinta que gasto, pai. É que falta tanta coisa... As mais das vezes, escreve-se com o que calha. Escreve-se com os dedos até ficarem em sangue, pai. E, depois, rasgam-se as paredes de alto a baixo, raspando nelas, de raiva e frustração, as unhas.
De repente, percebi que o João continuava ali, à minha frente. Notou certamente as densas e escuras nuvens nos meus olhos e ajeitou-se no banquito, ainda e sempre à espera. E eu com a cabeça vazia! Quando voltei a olhá-lo nos olhos, só me ocorreu dizer-lhe que o Jorge me tinha convidado para escrever no “Pista 8”. Ficou desconcertado. Sabia que não era aquilo que tinha para lhe dizer. E sabia que eu sabia. Mas não se descoseu e, na sua vozita sumida, com toda a naturalidade, retorquiu: “Mas tu escreves bem, pai”. “Talvez sim, filho, talvez. Mas gasto muita tinta!”
JOAQUIM MARGARIDO