A PORTADA
Era uma vez uma aldeia. Talvez não muito diferente de muitas outras aldeias. Lá
estavam a Igreja branquinha, o largo com o coreto, as ruazinhas estreitas e
apertadas, as casinhas modestas. As pessoas da aldeia eram gente humilde, gente
de trabalho, gente que amava a sua aldeia acima de tudo. E que, na sua maneira
simples de ser, no seu gosto de bem receber, fazia das festas da aldeia a sua
festa, abrindo as portas de casa àqueles que, de toda a parte, de muito longe
até, ali se deslocavam para as festas.
Nos dias que antecediam as festas, o povo juntava-se e, em conjunto, preparava
tudo ao pormenor. Era vê-los agarrados ao “verbo”, noite dentro, ninguém se
poupando a esforços para que, em chegado o grande dia, tudo corresse pelo
melhor. Tudo trabalhava, minha gente, do Regedor ao Manelzinho, um pobre de
Cristo, surdo-mudo e a modos que “faltinho do juízo”, na aldeia abandonado, ao
que consta, por saltimbancos de passagem, há muitos, muitos anos atrás.
As mulheres tiravam para fora das arcas as toalhas bordadas mais vistosas e
preparavam o pão doce e as fatias paridas. Os homens mais fortes montavam tendas
e palanques ou subiam às árvores onde penduravam fitas e panos. Mas a
“menina-dos-olhos” de toda aquela gente era a “portada”, uma pequena moldura em
madeira com mimosas letras e desenhos a verde sobre um fundo de branco
imaculado. Ali se anunciava a festa e era por entre as suas ombreiras que todos
orgulhosamente passavam no grande dia, ao desembocar no vasto terreiro.
Naquele ano, as festas prometiam ser mais grandiosas ainda. Por saberes que só o
Senhor Prior conhecia ao certo, comemoravam-se nesse ano trinta décadas das
festas. E como as festas prometiam ser rijas, despertaram a curiosidade do
senhor Morgado que, lá longe, na Vila, emitiu um desejo e um parecer:
“- Este ano, que se faça saber que irei à festa e que darei, do meu próprio
bolso, seis mil cruzados. Quero que se faça uma grande festa, a maior de todas.
E que se faça saber, também, que levarei a minha própria portada.”
Ao saber da notícia, o povo não cabia em si de contente. Poderia não se saber ao
certo quanto era isso de “trinta décadas”. Mas seis mil cruzados… Seis mil
cruzados, meus senhores, era… era… muito dinheiro! A notícia espalhou-se por
muitas léguas em redor. As festas iriam ser magníficas, que disso ninguém
duvidasse. Até que chegou o grande dia.
Mal os primeiros raios de Sol beijaram as casas da aldeia, a grande azáfama
começou. O terreiro estava mais belo que nunca, preparado para receber as muitas
pessoas que já se adivinhavam. De muito longe, lá do norte, o mordomo de outras
grandes festas tinha vindo em pessoa, trazendo ricos haveres e oferendas para
aquelas festas. Um cheirinho delicioso atravessava o ar e as bandas de música
ensaiavam os primeiros acordes. As atenções centravam-se agora na montagem das
portadas. E que bonitas elas ficavam, uma a seguir à outra. Primeiro a do senhor
Morgado, imponente; e depois, mesmo à entrada do terreiro, a singela e
branquinha portada do povo.
À medida que todos iam chegando, crescia a animação. Muitos amigos e conhecidos,
que ali haviam tomado conhecimento e ali se reencontravam ano após ano,
estreitavam-se já em abraços fraternos à medida que se dirigiam para as vendas
de vinho, que a tarde estava quente e a goela ressequia. As mulheres estendiam
toalhas na relva e deitavam-se à conversa, enquanto os mais pequenos andavam por
ali a saraquitar, cobiçando os brinquedos de madeira ou as bonecas de loiça
baloiçando nas tendas.
De repente, o rufar de muitos tambores anunciou a chegada do senhor Morgado. O
povo levantou-se, dirigindo-se para o local donde vinha o barulho. Com a ajuda
de dois criados, o senhor Morgado desceu do seu murzelo. Ajeitou a aperreada
farpela e, puxando pela grossa corrente de ouro que pendia de um dos bolsos, viu
as horas. Ergueu os olhos e passou a vista pelo terreiro. A grande aba do
chapéu, levemente levantada, permitia observar a sua figura. Era um homem
medonho. Muito alto e forte, o que mais impressionava nele era o olho vazado na
cara macilenta, dizia-se que duma espadeirada. Ao certo ninguém sabia se isto
era verdade e também se dizia que, quem o poderia dizer com toda a certeza, já
cá não estava para o contar. As crianças escondiam-se atrás das mães enquanto os
homens, cabeça descoberta, preparavam-se para saudar o senhor Morgado.
Olhando sempre em frente, o senhor Morgado caminhou pesadamente até se colocar
debaixo da sua portada. O povo rodeou-o e esperou pelas suas palavras. Fez-se um
longo compasso de espera, durante o qual o senhor Morgado olhou repetidamente
para a sua portada e para aquela mais pequenina, vinte metros à frente, à
entrada do terreiro. E quando falou, foi para dizer apenas isto:
“- Ou a minha portada, ou aquela, ridícula, ali!...”
O silêncio era pesado. Homens e mulheres baixaram os olhos, incrédulos, os dedos
apertando com força bonés e aventais, quase até ficarem dormentes. Um dos homens
destacava-se e avançava já na direcção da pequena portada, determinado em
retirá-la, disposto a acatar a ordem do senhor Morgado. Ele era o homem que mais
tinha trabalhado ao longo de todos aqueles dias, o homem que mais amava aquelas
festas, aquela terra. A sua terra! A cara bexigosa do senhor Morgado abriu-se
num esgar de satisfação, mostrando os grandes espaços negros entre os poucos
dentes amarelados da sua enorme bocarra. Eis senão quando um grito irrompeu do
meio da multidão:
“- Não!”
Os olhos de todos cravaram-se, incrédulos, no palhaço-malabarista. E todos
perceberam nele a franzina figura do Manelzinho. Nunca se ouvira um som que
fosse sair daquela garganta. E ali estava ele, trémulo mas decidido, enfrentando
o Morgado prepotente, lágrimas a correr em fio pela cara abaixo, desbotando a
tosca pintura, a mão direita, esquálida, cerrada, erguida para o céu. Um círculo
pequeno abriu-se à sua volta, deixando-o no centro, sozinho, face ao senhor
Morgado. Fez-se um silêncio de morte.
O senhor Morgado avançava já na direcção de Manelzinho quando meia-dúzia de
homens, punhos cerrados, lhe barraram o caminho. O pescoço inchado do senhor
Morgado tingiu-se de vermelho vivo sob o colete que parecia cortar-lhe a
respiração. Incrédulo, fitou-os. Depois olhou para a sua portada e, mais lá à
frente, para a portada pequena que permanecia no sítio. Sem uma palavra montou
no murzelo e partiu, com o vasto séquito atrás, avançando silenciosamente de
regresso à Vila.
Mal desapareceu à vista de todos, as festas recomeçaram com redobrada alegria e
animação. Os grupos de bombos, bombavam com quanta força tinham. Ninguém falava
noutra coisa, senão na lição dada ao senhor Morgado. Levado em ombros pelo
terreiro, Manelzinho foi o herói das festas, nesse dia. Mas logo que se recompôs
de tanta emoção, voltou a ser apenas o palhaço-malabarista, correndo por toda a
parte feito louco, logo seguido duma revoada de crianças.
O baile reteve o povo todo até altas horas da madrugada. E foi com a alma plena
de alegria que aos poucos foram abandonando o terreiro, orgulhosos por terem
sido testemunhas da maior de todas as festas. Ao longe, ainda podiam sentir as
palavras trazidos nas asas do vento, que da boca do poeta, de preto trajado e
boina na cabeça, com a voz aflautada e uma pronúncia própria dos povos dos sul,
cantava assim:
“Negra como a noite, negra como os corvos
Negra como a noite, negra como os corvos
Crista em desafio contra os ditadores
Morra quem não tem amores.”
JOAQUIM MARGARIDO