A Maratona Carlos Lopes nasceu mal desde início!
Todos aqueles que partilhavam um determinado fórum de discussão na Internet,
sabem a confusão que existiu sobre esta prova desde a sua criação. Inicialmente,
pondo de lado aquela que era denominada “Maratona de Portugal”, a prova lá se
impôs no calendário, não se impondo, porém, perante os principais agentes da
modalidade. Eu, como moderador desse fórum, criei inimigos, numa altura em que o
respeito era pouco, muito pouco, e em que as pessoas, num processo de
auto-destruição da modalidade, “esgrimiram”, de forma feia os motivos da
existência, ou não, desta prova.
Com participações sempre muito reduzidas, esta prova nunca cativou atletas em
grande número, mesmo com apoios de peso de várias entidades ao longo das 4
edições, só, e apenas, por causa do nome de Carlos Lopes. Nas primeiras edições,
algumas falhas técnicas colocaram em causa o sucesso desta prova – o que não
deixa de ser normal em primeiras edições de uma prova. Na última edição, a
falha, provavelmente, até nem foi da Organização da prova, porque, sinceramente,
desta, já poucos esperavam – era isto que facilmente se auscultava da comunidade
do atletismo. A falha foi realizar-se, pelo segundo ano consecutivo, o
Campeonato Nacional da Maratona nesta prova. Disso já falarei mais à frente, mas
antes de prosseguir, gostaria de aqui expor quatro condições que a mim me
impressionam negativamente:
1. Porque há-de a Maratona Carlos Lopes insistir em colocar esta prova no
fim-de-semana em que se realizam as maratonas de Londres, Roterdão e Turim? Será
que não se percebe que esta é uma fórmula que não resulta?
2. Como se pode ter a ideia peregrina de antecipar uma maratona à última da
hora, para um Sábado à tarde? Toda a gente sabe que, nessa altura, o vento
abate-se em Lisboa, e a probabilidade de calor é imensa, logo, os resultados
serão potencialmente fracos.
3. Como é que apenas se convocam voluntários poucos dias antes desta prova, como
se fosse de um dia para o outro?
4. Que estratégia tem a organização desta prova quando se sabe que, no mesmo
fim-de-semana, se realizou na região de Lisboa as seguintes provas:
- Campeonato Europeu de Judo;
- Estoril Open;
- Moto GP – Circuito do Estoril
Era óbvio que os media generalistas não iam dar importância à Maratona Carlos
Lopes e ao Campeonato Nacional de Maratona. Mas é preciso ter muitos
conhecimentos técnicos para se saber isto?
Indo de encontro ao que tenho a dizer sobre aquilo a que se chama Campeonato
Nacional da Maratona, a Federação Portuguesa de Atletismo tem “n” motivos para
não o fazer nesta prova:
1. A prova não acolheu, nunca, na sua história, participação massiva de atletas
portugueses. A única coisa que esta prova provocou foi o colocar de parte uma
prova de Maratona que tinha o apoio da maioria da comunidade do atletismo
(independentemente dos motivos que levaram a essa situação).
2. Esta sempre foi uma prova pobre de resultados portugueses, até
internacionais, e nunca cativou qualquer presença de um grande maratonista
português (Nelson Cruz não é português!!!)
3. A Organização, desde início, que aposta numa estratégia demasiado
internacional, ou seja, os portugueses não têm sido muito focados por esta.
Aliás, em nota de imprensa, a Organização aponta esta prova como uma maratona
para promover o Turismo de Lisboa, ficando muito contente com o aumento de
estrangeiros na prova – havendo esquecimento para a diminuição de portugueses.
4. Esta prova não cativa nem atletas, nem juízes, nem clubes, nem treinadores,
nem público (falo de público da modalidade…e não meros curiosos, turistas
perdidos, condutores enraivecidos, ou público do Campeonato Europeu de Judo).
O mais engraçado disto tudo, é que nem a Federação Portuguesa de Atletismo deu
importância a esta prova no seu site e nem a máquina de comunicação que a prova
tinha deu para estimular os media. Aliás, se formos analisar as notícias, os
media deram a notícia para falar sobre algum fracasso desta prova e não foram
muito emotivos pela ocupação das avenidas lisboetas pela mesma.
Agora eu pergunto-me…como se pode chamar a isto Campeonato Nacional de Maratona
se nem sequer a Federação Portuguesa de Atletismo lhe deu destaque antes,
durante e após?
Penso que temos duas vias possíveis para, pelo menos, não desprestigiar o
atletismo português, na vertente da maratona:
- Ou a Federação Portuguesa de Atletismo escolhe outra Maratona para realizar o
Campeonato Nacional (Lisboa e Porto são boas opções).
- Ou acaba-se com este conceito de Campeonato Nacional de Maratona, por se
considerar que só em Abril faz sentido um Campeonato Nacional. É verdade que
sim, que é a altura mais lógica para um Campeonato Nacional de Maratona ocorrer,
mas com uma maratona que promova a participação dos principais atletas
portugueses. Caso contrário, mais vale manter a dignidade, e uma data menos boa.
Quero, aqui, referir que nada me move contra os atletas que se tornaram campeões
nacionais, para quem esta prova deve ter sido um estímulo. Também quero, aqui,
referir que enquanto esta prova continuar com a mesma política, simplesmente não
darei grande importância à mesma. Portanto, o que me indigna verdadeiramente nem
é o facto de a prova ter estas características insólitas – que andam a manchar
cada vez mais a imagem do nosso campeão Carlos Lopes. O que, de facto, me
indigna é o facto da Federação Portuguesa de Atletismo continuar a dar crédito a
esta prova, que mais parece que o faz apenas por obrigação ou por pressões
externas.
Por último, revolta-me que se tenham anunciado determinadas marcas, não se
tenham cumprido, e depois vir da boca de Carlos Lopes que os resultados
estiveram dentro do estipulado. É preferível, da próxima vez, nem ser feita
conferência de imprensa, não se anunciarem marcas, nem atletas e termos a
agradável surpresa de saber que se cumpriram as marcas estipuladas previamente
(mesmo que isso não corresponda à realidade).
Quem fica a perder com tudo isto é o atletismo português, o nome de Carlos
Lopes, e o prestígio dos maratonistas portugueses. Curiosamente, nesse mesmo
fim-de-semana, Inês Monteiro veio a obter mínimos olímpicos em Roterdão, e isso
sim foi notícia…
EDGAR BARREIRA