Saindo da sessão
de yoga, meto-me no boguinhas de regresso a casa. Paz e serenidade, o carro
leva-me suavemente, vou entrando em Monsanto, meu local de treinos. Ocorre-me
então que vinha mesmo a calhar uns 11 km de corrida… Já estava ali, fato de
treino e ténis adequados, porque não aproveitar? Ontem não tinha treinado as 3
horas por causa da constipação, mas hoje estou melhor, porque não?
Um pequeno desvio e entro no parque de estacionamento do Centro Ambiental.
Curiosamente, o parque de estacionamento está deserto e tudo está silencioso.
Reparo que, embora sendo só 21 horas, não me cruzei com nenhum automóvel no
percurso de Monsanto, desde a Cidade Universitária até ali. Sinto um qualquer
mistério calmo no ar, uma atmosfera especial que não sei descrever.
Fecho o carro, ligo o cronómetro e arranco. O meu corpo, preparado pela sessão
de Yoga, está prontíssimo para a corrida e lá vou eu. Na estrada deserta, a mata
é banhada pela luz amarela dos candeeiros. Primeiro, o troço é a descer e vou
acelerando. Da mata, vem-me o pio duma coruja. Curioso, sempre corro ali à
noite, sempre ouvi as corujas, mas hoje aquele pio era diferente, mais nítido e
envolvente. Aproxima-se a subida… Esta subida, de curvas e contracurvas, é o
calvário dos corredores. A princípio, via-me aflito mas agora, subo-a toda a
correr e nos fins de semana, divirto-me a ultrapassar os ciclistas de Domingo
que acabam por se apear, estoirados, sem fôlego para mais. Mas agora a estrada
está deserta, aquela luz amarela, neste estranho dia de hoje, ilumina dum modo
diferente, transformando a paisagem num cenário de desenho animado, de Branca de
Neve, de Capuchinho vermelho, de Gata Borralheira… Passada a curva, um
sobressalto: Lá adiante, a uns 200 metros, um lobo.
Um lobo em Monsanto??? Bom, não sei, estes ecologistas radicais bem capazes
disso são, coelhos não faltam, já introduziram os esquilos, se calhar
introduziram lobos também, para fechar a cadeia ecológica… Resolvo adoptar a
minha estratégia para os cães, essa ameaça dos corredores: Não mostrar medo,
prosseguir o caminho com decisão. Assim vou avançando e aproximando-me do bicho.
Deveria meter-me por um desvio na mata, discretamente evitá-lo, mas curiosidade
e um sentido de poder faz-me prosseguir. O lobo está agora a uns 100 metros mas,
quando avanço mais, ele entra num galope curto e volta a afastar-se, mantendo a
distância. Olho à volta, procuro um pau, uma pedra, quem sabe se ele me ataca?
Existem uns calhaus na berma escavada, ramos caídos mais dentro da mata, bom, se
houver azar, terei que usar alguma arma. Sinto-me um homem das cavernas, quase
outro animal. Aproximo-me da berma e meço com olhar os pedregulhos, são
demasiado grandes. Um tronco é mais manuseável, olho os ramos caídos, para
apanhar um sem parar de correr. Mas reparo que o lobo prossegue com o rabo entre
as pernas, mirando-me de esguelha. Está com medo de mim!
De facto, cresce em mim a sensação de poder, de força, como sempre quando o meu
organismo já está quente e a corrida entra em velocidade de cruzeiro. Resolvo
acelerar, o lobo entra novamente a galope e ganha distância. Desaparece na curva
e eu sigo-lhe no encalço. Volto a vê-lo, está de novo a uns 150 metros mas
parou, atravessado na estrada, agora o rabo arqueado para cima, e…ladra!
Não é um lobo, é um cão, mas já não tem medo de mim, ladra e não sai do meu
caminho! Sem mostrar medo, aproximo-me e reconheço o local e o cão: Aqueles são
os cães que guardam uma das casas da guarda-florestal, geralmente dentro da
vedação. Só que este, o maior, hoje está cá fora e pronto a proteger o seu
território!
Tento fazer uma diagonal que evite o cão, sem me desviar ostensivamente. O cão
continua a ladrar, mas eu resolvo prosseguir, embora sinta a tensão e a
adrenalina a aumentarem dentro de mim. O cão persegue-me, no mesmo ritmo da
minha passada, o focinho dele escolta-me a centímetros das minhas pernas…Ai,
pressinto a mordidela e transporto-me para umas dezenas de anos atrás, uns
milhares de quilómetros para Sul. Norte de Angola, 1969, perto do quartel de
Zala: O tiroteio irrompe no vale, só me resta correr colina acima, para os
abrigos, as balas a baterem no chão ao meu lado, e eu antevendo a dor quente dum
tiro certeiro nas costas. Que não veio. Nem mordidela. O cão, cumprida a sua
missão de proteger a casa do dono, deixa-me em paz.
A inclinação da estrada muda, atingi o ponto mais alto, agora é a descida suave.
Acelero de novo, rumo ao parque de merendas. Finalmente, gente? Não, há lenha e
carvão ainda incandescente num grelhador, mas os comensais já se retiraram.
Mesmo no Inverno, imigrantes usam estes grelhadores para preparar as suas
refeições. Até com tempo a ameaçar chuva, como hoje. Passo sobre a autoestrada,
em baixo vão carros, mas, entre as rotundas, cá em cima, nada. Estranho!
Aproximo-me do Anfiteatro Keil do Amaral, uma bela esplanada virada para o Tejo,
toda a outra banda, a Ponte e, ao longe, Palmela, Sesimbra, o céu iluminado de
Setúbal. Que maravilha! Passo ao lado do restaurante de Montes Claros e inicio o
retorno, vou agora sob o viaduto da auto-estrada, corro entre a mata de altos
pinheiros. Corujas de novo! Será a mesma? Não, são outras avisando da minha
presença. Depois da curva, nova paisagem deslumbrante, agora, os bairros
periféricos do Norte de Lisboa, o seu luzeiro entre a neblina. Lá, chove,
troveja, vejo relâmpagos e os trovões distantes, que soam também estranhos, mas
familiares e amigos.
Acelero na descida, a passada enérgica e cadenciada, o bater violento do
coração, a respiração forte e ritmada leva-me, o corpo todo entregue às mil e
uma impressões e de dentro de mim, vem um canto:
Foooo – fá! Foooo – fá!
Foooo – fá! Foooo – fá!
Eu sou o ar e a respiração
Eu sou o lobo, eu sou o cão
Eu sou a estrada e sou o chão
Sou o relâmpago e o trovão
Foooo – fá! Foooo – fá!
Foooo – fá! Foooo – fá!
Inspiração, expiração
Eu sou a luz, a escuridão
Eu sou a pedra, a escavação
Eu sou amor e a solidão!
Álvaro Costa