Sobre a Minha Primeira Maratona (Porto 2006)
A partida foi o início duma solenidade que vinha preparando desde o início do
ano. O Dr. Moffetone pôs-me a correr a 7 minutos/km durante três horas e meia,
pendulando entre o Cais do Sodré e a Cruz Quebrada. Fiquei a saber o que é
correr sozinho tanto tempo, aperfeiçoei abastecimentos sólidos e líquidos.
Depois dessa preparação psicológica, lá para Maio, o Eduardo Santos disse que
chegava de Moffetone, que ficaria coxo para o resto da vida, enfim, fui para a
aeróbia, no sobe-e-desce de Monsanto, progressivamente aumentando os tempos até
às 3h30, culminando na Meia de Ovar, em que bufei os 21km em 1 hora e 47, meu
recorde pessoal.
…E agora cá vou eu, a Ana Pereira, foi minha madrinha da corrida, cuidadosa
comigo e sempre a incentivar-me, fizemos um grupinho coeso até aos 21km. Mas
eles estavam acelerados demais para as minhas contas. Gostava de fazer a prova
em menos de 4 horas, mas sair dos 6m/km a que me habituei parecia-me arriscado…
É que estava a desvirginar-me de Maratonas (Ainda obrigo o Jorge Teixeira a
casar comigo)! O máximo que tinha feito foi 30km (do Olivença -Elvas) isso eu já
sabia como era, mas, mais 12 em cima dos 30km?!
Talvez pudesse ter continuado com o grupo da Ana, puxávamos uns, pelos outros,
acabaria, sim, mas como? Resolvi deixar-me ir no meu passo, eles, incluindo a
minha madrinha, lá se foram distanciando e fiquei só com a paisagem. Que
maravilha!
Gosto muito do Porto, das terras e da gente, carago! Vir a correr para a prova e
partir de volta a Lisboa foi um bocado pena, apetecia-me ficar mais dois ou três
dias, voltar a passear calmamente o percurso, curtir as impressões de novo…
Mas que nada, havia de tocar para a frente. E tudo bem organizado, bons
abastecimentos, assistência médica, massagens, fruta, isotónico, passas,
laranjas, bolachas, água, esponjas… Eu lá fui enfiando o que podia, para além
das minhas armas secretas que passei a comer depois dos 21, uns waffers
revestidos a chocolate a que me habituei em Monsanto e de que trouxe provisão do
saco da Meia de Ovar.
Gaia, a ponte para lá, público simpático, incentivos, ponte para cá: Feita a
meia, ia começar a travessia do deserto. A estrada agora em silêncio,
tap-tap-tap das sapatilhas. Tapete e retorno… para me distrair, mando bocas ao
pessoal em sentido contrário. Às duas por três, alcanço uma bifa dos Plumstead
Runners, jeitosinha, tive pena de a ter que ultrapassar, mas a vida é assim,
ainda lhe mandei uma boca “Come on, You’re such a plum!” que mereceu a
retribuição dum sorriso e dum simpático “thank you”. Lembro também uma
finlandesa adejando a sua bandeira que cruzei algumas vezes. Como o último era
um finlandês, penso que ela esperava por ele. Último na corrida, mas com uma
bela compensação terrena, deve ser feliz…
Enfim, isto, são pensamentos avulsos do que me ocorreu nesta experiência da
minha vida, iniciada com a estreia na mini da Ponte 25 de Abril, em 1998…
Depois duns empedrados que ultrapassei garbosamente, aproximei-me da “parede”
dos 37 km… O mar entra em cena, que beleza, mas aí veio o Mostrengo (Obrigado,
Fernando Andrade, era essa mesmo a imagem que não me ocorria e de que precisava
aqui). De facto, foi ai que encarei o Monstro da Maratona, que me fez por três
vezes largar as mãos do leme, duvidar da empresa, pensar em desistir, recear:
”não vou conseguir…” Um pensamento segredado a medo para mim próprio, uma
angústia fininha, a ligar-se aos mil medos e frustrações dos meus quase 60 anos
de vida. Mas voltei a segurar-me ao leme, fui passando as malditas rotundas,
amaldiçoei tudo e todos, a Ana Pereira, o maluco do Eduardo Santos, Os PCGC, o
Jorge Teixeira e a sua maratona… Ah…!
Na última rotunda, na volta para a última subida para a meta, vejo os outros
desgraçados que se arrastavam atrás de mim, em sentido contrário… Ah, ainda
estão piores que eu, alguns caminham, eu ainda consigo correr… No início da
subida, uma pessoa sorri e diz adeus aos corredores: A camarada Beatriz.
Veterana experiente, ela sabia que era ali que nós precisávamos de apoio. E foi
bom, carago! Então, quem sou eu, carago, quem sou eu??!!
Vai dai, ligo o turbo e arranco pela subida, terreno onde, graças aos treinos em
Monsanto, me sentia à vontade. Vivaaaaaaaaaaaaa!!! Onde está a Ana, o António e
os outros? Onde estão, onde estão, onde estão?????... Já não deu para os
apanhar, mas ainda ultrapassei uns quantos no quilómetro final, terminando os
últimos 100 metros com o sprint da praxe, passando um companheiro veterano!…
Estava feita a minha primeira maratona e agora que estou a escrever, não sei
porque me vêm as lágrimas aos olhos, deve ser da velhice. Agradeço à Ana, ao
Eduardo, ao António, ao Luís Miguel, aos PCGC e ao Jorge Teixeira toda a ajuda e
incentivo, também à Tartaruguinha e não esquecendo a Beatriz, cuja imagem só,
junto à última rotunda, me salvou definitivamente do Mostrengo.
Para terminar só queria dizer que dediquei esta corrida mágica a outro espaço
mágico que tenho habitado ultimamente: Os encontros “Dance the Heart” (pesquisem
na NET - vale a pena). E também aos seus habitantes, em particular aos seus
mentores, o David Camacho e a Luísa e, claro, à Lília, que me levou para lá.
Abraço a todos e desculpem o relambório, mas para mim era importante escrever
isto…
NOTA
Este texto venceu o concurso "Sálvio Nora" organizado pelo forum
www.omundodacorrida.com