SÉRGIO CRUZ
Treinador do
Grupo Desportivo do Estreito - Madeira
Entrevistado por
José Duarte
Sérgio Paulo Marmé da Cruz
Data Nascimento: 17 Fevereiro de 1972, 36 anos
Naturalidade: Paranhos da Beira - Seia
Professor do E.B.V Educação Física, Instituto
Superior de ciências Educativas de Mangualde – Mangualde
• Monitor de desportos gímnicos, ginásio agonístico de Seia, 1989 a 1993
• Treinador de atletismo, Associação de Recreio e Instrução de Santa Comba de
Seia, 1996 a 2000
• Treinador de atletismo, escalões de formação, Juventude Associativa Santa
Comba Seia, 2000 a 2003
• Treinador de atletismo, escalões de formação, Clube Sport Marítimo, 2002 a
2005
• Treinador de atletismo, escalões de formação, Grupo Desportivo do Estreito,
2005 a 2008
• Treinador do ano 1999, atribuído pela
Associação Atletismo da Guarda
• Prémio “Reconhecer o Mérito 2000”, atribuído pelo Ministério da Juventude e do
Desporto
• Prémio “Dirigente do ano 2001”, atribuído pela Associação de Atletismo da
Guarda
• Treinador do ano 2007, atribuído pela Associação atletismo da Região Autónoma
da Madeira
Fale-nos sobre o seu passado no atletismo e sobre a
sua opção pelo treino na área dos lançamentos.
Eu sou natural da Seia pratiquei atletismo dois anos quando era adolescente,
no entanto não tive a oportunidade de continuar, mas passado 10 anos eu e mais
uns colegas decidimos criar algumas actividades para os mais jovens, foi então
que o "bichinho" do atletismo renasceu.
Nesses 5 anos que se seguiram trabalhei com mais de 150 jovens, criando uma dinâmica associativa.
Treinei todas as disciplinas, umas mais do que
outras, porque assim era obrigado, consoante as características de cada jovem
que orientava, por isso penso que tenho alguma base se sustentação na minha
formação como treinador.
Por isso tenho que agradecer a algumas pessoas que muito me ajudaram nos
primeiros passos como treinador, em particular ao Prof. José Costa Actual DTN
Adjunto da FPA e antigo DT Regional da Guarda e ao Prof. António Fragoso Actual
DT Regional da Guarda.
Por circunstâncias da vida, tive que deixar o projecto que tinha em marcha na
minha terra e desde 2002 encontro-me na região autónoma da madeira, na qual
encontrei condições privilegiadas para continuar a trabalhar no atletismo.
Tomei a opção de me dedicar a esta área, porque gosto de desafios, e ser
treinador de lançamentos é um grande desafio, porque se requer muita
perseverança e paciência para superar dificuldades pessoais (na formação
técnica) e externas (condições de trabalho).
Podemos fazer um trabalho com a nossa "marca", em que tem que existir uma grande
sincronia entre treinador e atleta, em que se estende para a vida pessoal, de um
e do outro
.
Este sector ainda pode crescer muito em Portugal, deste modo sinto-me motivado
em poder contribuir para o desenvolvimento deste, na qual pode-se fazer muitas
coisas interessantes, a semelhança do que esta a acontecer actualmente nos
saltos.
Outra razão, e talvez a mais importante que influenciou na minha decisão, é o
facto de ter encontrado aqui na Madeira condições para me dedicar a 100%, visto
que estou destacado, de outro modo se estivesse no continente era praticamente
impossível estar a desenvolver o trabalho que actualmente faço.
Clubes que representei:
Associação Recreio Instrução Santa Comba de Seia (1996 - 2000)
Juventude Associativa St. Comba (2000 - 2002)
Clube Sport Marítimo (2002 - 2005)
Grupo Desportivo Estreito (2005- 2008)
Como vê esse sector, em Portugal, na actualidade?
Considera que o mesmo, a par do dos saltos verticais, continua a ser o "parente
pobre" do atletismo nacional?
Claramente que sim, mas temos que perceber o porquê desta situação, penso que
há pontos em que se tem que trabalhar para resolver e para alterar o rumo das
coisas, tais como;
1- Apostar na formação de treinadores que se dediquem inteiramente aos
lançamentos.
2- Falta de condições de treino, infraestrutural existem, mas pela ironia do
destino não se podem utilizar, são consideradas apenas "ornamentos" dos
estádios.
3- Como é uma disciplina muito técnica é impossível trabalhar com muitos atletas
ao mesmo tempo, o que implica que cada treinador tenha um número muito restrito
de atletas a seu cargo.
4- O receio de alguns treinadores se dedicarem aos lançamentos, porque é muito
exigente a vários níveis, como, formação técnica constante, uma grande
disponibilidade de tempo, os resultados desportivos não são imediatos, etc.
5- A selecção e detecção e de talentos, é feita com o objectivo de encontrar
corredores, porque se aparecer um jovem alto, rápido e com grande
disponibilidade motora "é sem duvida um corredor" ficando os mesmos rápidos e
menos aptos, para as outras disciplinas.
6- Falta de treinadores, que se dedicam inteiramente aos lançamentos, contam-se
pelos dedos, sendo impossível haver competição de qualidade enquanto os
lançamentos em Portugal dependerem destes "teimoso" estamos a na "corda bamba".
7- Também algumas opções incorrectas dos nossos dirigentes federativos, por
exemplo, excluir os lançamentos de rotação no principal torneio nacional da
formação "torneio nacional olímpico jovem", na minha opinião e dos demais
treinadores especialistas do sector é um erro, sendo um contributo negativo para
afastar treinadores e atletas na prática destes.
Portugal sempre teve tradição no meio fundo, porque era o que se podia
praticar, visto que não havia infraestrutural (pistas).
Actualmente já existem 60 pistas no pais, mas a maioria destas estão ao
abandono, investiu-se em equipamentos, mas o investimento ficou por aqui, o
investimento em recursos humanos ficou na gaveta. Dá pena ver estas, algumas com
excelentes qualidades, estarem ao completo abandono.
O que é necessário para cativar jovens para os
lançamentos?
Simplesmente é por estes jovens a lançar, temos que oferecer-lhes condições de trabalho, técnicas materiais, etc . Porque enquanto outras modalidades, tiverem melhores condições é muito difícil cativar desde cedo os jovens para a modalidade e em particular para os lançamentos. Os lançamentos é um desporto muito técnico, por isso a que ter a sensibilidade dos treinadores para não caírem no erro da rotina, isso provoca que estes abandonem, porque a sua pratica torna-se monótona.
Há também que criar competições aliciantes
como forma de motivação, porque o fundamental nas idades jovens é a competição,
sem competição para quê treinar.
Entre os atletas que treina, vislumbra algum com
capacidade para chegar ao topo nacional e, inclusivamente, para obter bons
resultados internacionalmente?
Os meus atletas são muito jovens, e fazer análises dessas é um pouco
arriscado, no entanto penso que tenho dois jovens com bastante qualidade, na
qual penso que ambos possuem excelentes qualidades para se tornarem em
excelentes atletas, Tiago Chaves juvenil e principalmente Cláudia
Nóbrega júnior, esta ultima já com provas dadas do seu potencial em se
tornar uma atleta de nível,.
No entanto, ter bom potencial não basta, enquanto não se apoiar estes jovens
atletas em que chegam a uma altura decisiva das suas vidas, em que têm que optar
pela vida escolar e trabalhar, porque em Portugal não se investe no desporto de
alto rendimento, trabalhamos na base do desenrasca "brincamos à alta
competição", porque é praticamente impossível trabalhar e ser atleta de alto
nível, (salvo raras excepções), nomeadamente neste sector porque o nível de
concentração e tempo de treino é muito exigente tanto a nível psicológico e
físico.
Todos opinam, sobre o porquê do abandono das nossas promessas, e a ideia que vem
muitas vezes ao de cima, criticando na generalidade os treinadores pela
especialização precoce dos jovens. No entanto não se vai ás principais causas,
tais como;
-Condições a treinadores para se formarem
-Incentivos e reconhecimento publico do trabalho desenvolvido, tanto a treinadores como atletas.
-Condições de trabalho, com equipamento e infraestruturas de qualidade.
-Apoio escolar adequado a cada atleta/aluno (existe leis sobre esta matéria, mas nunca são aplicadas) "tenho a experiência disso."
-etc.
Várias equipas da Madeira têm-se destacado em
diversos campeonatos nacionais, muito à custa do contributo de atletas que vivem
e treinam no Continente.
Para si, esta é a forma mais correcta de promover o atletismo na região ou
existem alternativas?
Penso que isso é uma falta questão, porque não existe dois países mas sim um
único no qual a madeira é a extensão do território português. Se fomos por este
prisma, então, também podemos referir que os principais clubes nacionais vivem a
custa de atletas não oriundos da "terra" dos clubes que representam.
Face ao modelo de subvenção existente na madeira, os clubes madeirenses vêem-se
obrigados a recorrerem a atletas continentais para reforçarem as suas equipas
preenchendo as lacunas existentes na região.
No entanto, é verdade sim, que existe um ou
outro clube em que praticamente os seus atletas são quase na totalidade oriundos
do continente, mas estes é por uma falta de aposta na formação (dá menos
trabalho), outros há que apostam forte na formação, com objectivo claro de
reforçar e integrar estes jovens nas suas principais equipas, mas não vêem
retorno imediato porque o apoio é insignificante face as despesas, correndo um
risco.
Outro aspecto positivo é a possibilidade de os jovens com qualidade possam ter
mais uma oportunidade de competir fora da madeira.
O atletismo tem tido sido promovido na região, se olharem para o calendário
competitivo, ele é muito vasto, com muitas alternativas (se calhar até em
demasia, em algumas áreas), se não somos a associação com mais competições ao
logo da época, estamos de certeza entre as primeiras. Na época finda, passamos a
ser a associação com mais atletas filiados, por isso estamos num rumo certo, mas
ainda há muitas coisas a melhorar futuramente.
Em entrevista ao nosso site, quando questionado
sobre o futuro do atletismo madeirense, Alcino Pereira, actual D.T.R., afirmou
"Com alguma apreensão quanto às infra-estruturas e às implicações que isso pode
trazer, sobretudo no que respeita à motivação das pessoas. Mas com algum
optimismo no que diz respeito à dinâmica entretanto já desenvolvida". Como
comenta esta afirmação?
Na minha opinião penso que os clubes estão a acordar para a necessidade de
apostar na formação, a dinâmica esta a aparecer, mas também penso que corremos o
risco desta esbarrar com alguns muros difíceis de derrubar, dos quais não
dependem de nós mas sim do poder politico.
Vai ser difícil crescer, enquanto os clubes receberem os subsídios com três anos de atraso, enquanto continuarem a desaparecer as infraestrutural existentes (estádio dos Barreiros), construir outras longe dos centros populacionais, e outras com erros de palmatória, ou se continuar a construir pistas para embelezar campos de futebol.
Face a concorrência, cada vez mais acesa com as outras modalidades e as novas tecnologias (ex: Internet) é complicado convencer jovens a se dedicarem à pratica desta modalidade se não lhes podermos oferecer condições, estruturais e materiais e fundamentalmente técnicas, porque não basta construir (como existem dezenas de exemplos no país de pistas abandonadas) se não se apostar no motor principal da modalidade, que são os treinadores.
O atletismo hoje funciona na madeira assim
como no resto do país graças a uns "carolas" teimosos, mas cada vez há menos
"carolas".