JOSÉ MOUTINHO
(Ultra-Maratonista, Orientista e Organizador)
entrevistado por
José Duarte
- Muitos conhecem-no apenas por "O frade", outros pelas suas ligações à corrida junto da Natureza e às ultra-maratonas. Quem é, na verdade, o José Moutinho?
José Moutinho é um cidadão português nascido em Harare -Zimbabwé no ano de 1958, casado pai de 2 filhos e empresário e como hobby principal tem a envolvência da prática das corridas na Natureza e acima de tudo a oportunidade de fazer amigos e de cultivar essa mesma amizade.
- Quando é que se iniciou na prática desportiva e no atletismo, em particular?
A prática da corrida chegou bem cedo no ano de 1967 (Outubro), quando entrei para a equipa de atletismo da escola e não havendo uma regularidade como nos dias de hoje, pois à época somente se fazia 2 a 3 provas por ano e onde no meu concelho não existindo algum clube de atletismo um jovem a correr sozinho pelas ruas do que hoje é uma cidade (Maia) era muito "revolucionário" , diria que para estas bandas eu fui um pioneiro, sem o saber, mas sim pelo prazer que estas me proporcionavam.
Também passei pela prática do Andebol e Voleibol (durante 5 anos no Gueifães).
- O
José Moutinho é um dos pioneiros do movimento ultra em Portugal (não confundir
com as claques de futebol, risos). Pouco depois da Revolução de Abril, fez a
Volta a Portugal a correr (por etapas) e, mais tarde, o Lisboa-Maia e o
Paris-Maia. De onde lhe surgiram estas ideias, "radicais" para a época?
Isso é uma grande verdade e quando revejo aquilo que à época se fez e em que condições é simplesmente fantástico.
E tudo começou com o conhecimento de uma noticia de uma travessia de atleta francês do continente americano, para mim foi um choque que me despertou o meu espírito de aventura num desporto de que muito gostava... a corrida.
Estamos nos inícios dos anos 80 onde a tecnologia da informação não existia como nos nossos dias (especialmente a Internet) e como tal a absorção de conhecimentos nesta área foi muito difícil mas o "querer " foi a nossa principal arma.
E daí veio o primeiro projecto ultra (1982) em Portugal a "Volta a Portugal a pé " - 1600 km em 29 dias.
Com muita dificuldade, pois para além de atleta, tive que idealizar, programar e angariar apoio para esta "aventura".
O projecto seguinte seria Paris - Maia que se realizaria em 84 com esta travessia na distancia de 1700 km e 34 dias.
Antecedendo esta travessia uma prova de 24 Horas em que a marca de 173,9 km foi atingida.
No ano de 86 tínhamos 2 provas para realizar: uma era o continuar de um grande projecto que não viria a realizar-se por falta de apoio económico - Travessia da Europa com a ligação de Copenhaga (Dinamarca) - Maia (Portugal) - 3200 km em 60 dias.
A outra seria realizada em Julho de 86 na ligação non-stop Lisboa - Maia na distância de 350 km.
- Em termos atléticos, qual a maior "façanha" de que se pode "gabar? E qual a que gostaria de concretizar?
Sem dúvida alguma a ligação Lisboa -Maia na distancia de 350 km que percorri em 60 horas foi o meu maior desafio, pois em múltiplos aspectos, este exigiu parte dos meus possíveis limites.
Os desafios que eu gostaria de concretizar não são nenhum especifico mas sim todos aqueles que ainda não fiz e que a minha imaginação idealiza.
- O que é que passa pela cabeça de um ultra-maratonista, quando participa numa prova com várias centenas de quilómetros? Que motivações o levam a enfrentar desafios desse tipo?
Na cabeça de um ultra-maratonista aquando da realização duma prova passam as mais diversas coisas, especialmente vê e revê os muitos filmes da "sua vida".
O verdadeiro ultra-maratonista é aquele que continua acreditar que a sua demanda é a busca dos seus limites.
- Para si, enquanto ultra-maratonista, qual considera ser o prémio justo para quem participa em provas tão longas? Por outras palavras, o que faz com que um ultra-maratonista regresse a uma prova no ano seguinte?
Cada atleta põe as metas que deseja conforme o seu relacionamento com o esforço, contudo e na maioria, o maior troféu é sem duvida a realização do desafio a que se propôs.
É por isso que a maioria dos ultras a quando da designação do seu currículo desportivo colocam as grandes provas que já realizaram e não os tempos.
Uma prova provoca diversas emoções a maioria sendo positivas faz com que a afinidade entre o atleta e a prova sejam de tal maneira que somente a sua repetição dará um sabor de "vitoria" ao mesmo.
- É um
dos fundadores da Confraria Trotamontes. Como surgiu a ideia de criar a
Confraria? Até à presente data, encontra-se satisfeito com as actividades que a
mesma tem levado a cabo?
A Confraria Trotamontes surgiu à volta de 10 anos aquando da participação de um grupo de amigos nas provas de montanha que existiam à época.
A Confraria (única no mundo do género) dedica-se ás actividades na Natureza em que a sua estrutura se baseia nas ordens de cavalaria medievais com cerimónias de entronização em que os confrades tem diversos títulos desde o Grão-Mestre aos Cavaleiros e Infantes.
A Confraria Trotamontes age não como um clube, com formação de atletas, mas sim com um grande projecto a longo prazo para a divulgação de actividades na Mãe Natureza no âmbito das corridas.
Esse projecto, com início em 2006 com o Ultra Trail da Serra da Freita - Memorial Sálvio Nora (um dos nossos mais iminentes confrades e que nesse mesmo ano nos deixou), tem vindo a multiplicar-se sendo em 2007 já com 2 iniciativas (para além da Freita (única prova Xtreme em Portugal, organizou o Caminho de Santiago Trail Aventura também única prova por etapas que se realiza neste país) para este ano 2008 duplicarmos novamente com a inclusão de duas novas provas - Ultra Trail Geira Via Nova Romana em 01 de Junho e a aquela que será sem duvida um dos maiores cartões de Visita da Confraria fora das nossas fronteiras a travessia da ilha da Madeira - o Madeira Island Ultra Trail.
- Em termos organizativos, os dois próximos projectos da Confraria Trotamontes são a Geira Romana e o Caminho de Santiago. Fale-nos um pouco de cada uma destas provas.
O Caminho de Santiago será a 2ª edição e os números de participantes simplesmente dobraram (33 em 2007, 70 nesta edição) em que práticamente os mesmos atletas do ano passado estarão presentes, isso é sem dúvida um dos melhores argumentos que temos para dar continuidade, nesta prova mais mística que existe na Península.
O outro projecto será a Geira Romana, uma "auto-estrada" com 2000 anos que fazia a ligação de Braga a Astorga e que devido à sua preservação é candidata a Património Mundial da UNESCO. Uma prova mágica sem dúvida e que muito promete de vir a ser a Ultra Trail mais participada em Portugal.
Mas o grande desafio será a Madeira Island Ultra Trail uma prova de 96 km e 3200 m de desnível positivo, aquela que consideramos o mais belo Ultra Trail do mundo, onde as premissas são para ser uma das provas de top no mundo das corridas .
-
Neste âmbito, para si, o que seria "a cereja no topo do bolo" que a Trotamontes
poderia almejar?
O maior desejo é que espero que a Trotamontes tenha simplesmente de continuar com o projecto para esta traçado.
- Quais considera serem as principais características e cuidados que um corredor deve ter, ao participar numa prova destas?
Costumo dizer que para as montanhas ou correr em plena Natureza não são precisos super-homens muito pelo contrário.
Mas se um praticante "obedecer" a regras muito simples como a pratica de "ouvir" o seu coração a busca dos seus limites é infindável.
Este é o principal "mandamento" o restante são "pormenores" que ajudam a dar continuidade a essa busca.
A maturidade de um atleta faz-se com a participação em provas dos mais diversos níveis
- Como vê o futuro das ultra-maratonas em Portugal?
Muito bom, pelo menos no que respeita ás ultras da área do trail, e espero que o projecto da Confraria seja um dos maiores dinamizadores.
Pois como a experiência que vivi nos anos 80 me ensinou uma coisa muito importante, de que não havendo um calendário de provas no nosso país não haveria uma escola de ultra-maratonas mas sim alguns atletas com experiências a este nível.
O grande projecto da Confraria Trotamontes é formar uma escola de ultra-maratonas em Portugal, não na área técnica, mas sim na produção de eventos que mais tarde despoletará numa busca e aperfeiçoamento técnico dos que nela participam.